Nota Pública: a cana será devastadora para a Amazônia e insustentável para o planeta Terra

 

_”Dessa maneira, a Igreja se compromete a ser aliada dos povos
amazônicos para denunciar os ataques à vida das comunidades indígenas,
os projetos que afetam o meio ambiente, a falta de demarcação de seus
territórios e o modelo econômico. De desenvolvimento predatório e
ecocida.” Documento Final do Sínodo da Amazônia, n. 46_

A perspectiva da sustentabilidade e do bem viver na Amazônia só tende a
piorar depois do Decreto 10.084 de 05 de Novembro de 2019 do Governo
Federal, que aguardou a finalização do Sínodo da Amazônia para revogar
o zoneamento ambiental de 2009 e liberar a produção de cana-de-açúcar
para etanol na Amazônia e no Pantanal. As comunidades amazônidas e
pantaneiras devem resistir e se opor mais uma vez, como em 2005, contra o
plantio de cana e as usinas de etanol, que ameaçam expandir o latifúndio
e originar mais violência e conflitos agrários, pois prejudicam
especialmente os  territórios da Amazônia e do Pantanal, desequilibrando
os ecossistemas e a vida em dois dos biomas naturais mais importantes do
Brasil.

A liberação do plantio de cana-de-açúcar já estava prevista e agora
aparece claramente como um dos fatores que provocou o aumento da grilagem e
das queimadas este ano, assim como o acirramento dos despejos de camponeses
em 2019, criando mais cobiça e pressão fundiária acima dos territórios
das comunidades tradicionais e de pequenos agricultores. Antes mesmo do
decreto, promotores de usinas de etanol já estavam incentivando o cultivo
intensivo de cana em algumas regiões amazônicas, como no Estado do Acre e
em Porto Velho (RO), oferecendo supostas vantagens aos pequenos produtores,
com o objetivo de transformar o território de vida do campesinato nas
monoculturas da morte do agronegócio.

Já é comprovado que os problemas ambientais e sociais da monocultura da
cana atingem diretamente os povos indígenas e as comunidades tradicionais,
afetando todos os camponeses com a contaminação dos entornos dos
canaviais pelo uso de agrotóxicos. A monocultura adoece as pessoas,
emprega com superexploração ou por trabalho escravo, contamina o solo e
as águas, envenena a vegetação e os animais, provoca insegurança
alimentar e a morte dos peixes, dos campos naturais e dos cultivos das
várzeas. O plantio de cana no Pantanal incidirá diretamente no turismo
regional e intensivamente nas áreas indígenas. Considerando inicialmente
que a cana compete com áreas da soja e pecuária, na Amazônia produz-se o
deslocamento da fronteira agrícola para os limites das áreas protegidas e
territórios tradicionais, traduzindo-se em mais grilagem, desmatamento,
violência e conflitos no campo. Ainda, a queima da cana para a colheita
traz mais risco de incêndios e queimadas. Assim o plantio também será
responsável direta e indiretamente pela redução das chuvas fornecidas
pelos rios voadores, que carregam umidade da Bacia Amazônica para o
Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, Um cenário que contribui com o
aquecimento global e agrava os efeitos das mudanças climáticas, com
resultados negativos na redução de emissões brasileiras de carbono.

É uma falácia achar que o uso da porcentagem de etanol na gasolina dos
carros, seja aqui ou na União Europeia, faz mais sustentável o
transporte. O etanol na Amazônia e no Pantanal representa um cenário de
mais violência, morte e destruição para os povos e para os biomas
atingidos, que também não resultará em maiores lucros para o setor
sucroalcooleiro, pois deve motivar a redução das exportações sujas com
as cinzas das florestas amazônicas, e inclusive comprometer os programas
europeus de uso de etanol.

O sacrifício em novembro de 2005 do ambientalista Francisco Anselmo
(Francelmo) e a persistência das comunidades abençoadas pela Criação
Divina, que protegem e guardam as águas, os campos e as florestas
tropicais da Amazônia e do Pantanal, não serão em vão.

ARTICULAÇÃO DAS CPT’S DA AMAZÔNIA, 14 DE NOVEMBRO DE 2019

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