A história da coluna Zona Franca 2

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RK com o saudoso Chiquilito Erse, então prefeito de Porto Velho

Por Roberto Kuppê (*)

Os bastidores da coluna Zona Franca, publicada diariamente pelo extinto jornal O Estadão do Norte por mais de duas décadas. Neste artigo vou abordar o que acontecia antes da coluna ir ao ar, digo, antes de ser publicada no dia seguinte pela edição impressa do jornal. Claro, não havia edição eletrônica na época. Estamos falando dos anos 90, período no qual este que vos escreve esteve à frente da referida coluna. O jornalismo eletrônico através de sites de notícias só surgiria na década seguinte, nos anos 2000.

Antes de adentrar ao assunto tema do artigo, aos jornalistas novinhos, da era digital, é bom lembrar da existência de jornais de outrora. Pela ordem de fundação: Alto Madeira, O Guaporé, A Tribuna, O Estadão, O Diário da Amazônia, A Folha de Rondônia, O Imparcial. Destes, tão somente o Diário da Amazônia criado em 1993, resiste aos novos tempos.

Na verdade, o primeiro jornal impresso foi o The Porto Velho Times, com textos inteiramente em inglês, edição inicial no dia 4 de julho de 1909, data da independência norte-americana país onde ficava a matriz da empresa construtora da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Em português, a primeira publicação foi o jornal “O Município”, em 1915 e que em 1917 teria seu nome mudado para “Alto Madeira” – o segundo jornal mais antigo da Amazônia Ocidental e um dos 20 mais antigos do país.

O Jornal O Estadão do Norte surgiu em 1980, antes mesmo da criação do estado de Rondônia, pelas mãos de um visionário que começou a vida vendendo pastel e engraxando sapatos, aos sete anos de idade, na porta da fábrica em que o pai trabalhava, em Arcos, Minas Gerais. Antes de fechar em meados de 2015, o jornal tinha uma tiragem diária de 15 mil exemplares (20 mil na edição dominical) e circulava nos 52 municípios do estado.

“O jornalismo é pensado como primeiro rascunho da história e da memória
coletiva, uma vez que os profissionais trabalham, cotidianamente, com o registro e a
difusão dos acontecimentos da atualidade, apresentando aquilo que consideram
preponderante para determinada sociedade e naquele momento. O passado é utilizado
ainda para tratar dos eventos atuais, sobretudo para que se tenha uma compreensão
ampla e profunda dos fatos e dos acontecimentos, abordando o máximo da sua
complexidade”, do professor Allyson Martins, da UNIR, extraído de “Rascunhos para a história da imprensa de Rondônia: resgate do passado pelas memórias e períodos de formação dos jornais impressos”. 

Momento de descontração na redação do jornal O Estadão do Norte

Quando assumi a coluna em 1993 (o jornal tinha 13 anos de existência), foi como mudar da água para o vinho. Na minha estada como colaborador do semanário “Caderno de Domingo”, encarte do jornal Alto Madeira, eu era apenas um faz tudo, e que nada recebia por isso, apenas as migalhas deixadas pelo meu “chefe”. Eu era muito humilhado por este “chefe”, mesmo  sem receber nada para trabalhar duramente. Era, por assim dizer, um trabalho análogo à escravidão sim, senhor.

Ao deixar essa condição de escravo, o meu “chefe” balbuciou que eu não passaria três meses n’O Estadão. Fiquei por mais de uma década. O empresário Mário Calixto, a quem devo minha ascensão profissional, me transformou num ícone do jornalismo de Rondônia (risos). É verdade! Mudei da água para o vinho. Antes não tinha nem como comemorar meu aniversário. Com O Estadão veio a bonança (e a minha vingança contra o antigo “chefe”).

Chega de babação e auto elogios, vamos direto ao assunto. Como disse no artigo anterior, peguei a coluna das mãos do então responsável por ela, o jornalista Led Monteiro. Era uma bomba atômica (e eu não sabia). Fui conhecendo o poder da coluna no dia a dia. A publicação era muito temida e eu não tinha ideia onde estava me metendo. Mas, isso me excitava. Risos.

A coluna funcionava assim. O Mário (Calixto) ditava e eu transcrevia, transformando em texto jornalístico. As vezes, muitas vezes, me passava uns garranchos que eu sofria para traduzir. Textos incompreensíveis, mas, eu conseguia decifrar e no dia seguinte eram publicados caindo como uma bomba no seio político.

Governista, os alvos de MC eram quase sempre a oposição ao governo de plantão, principalmente, na época, contra o PT de Rondônia. Aliás, o jornal surgiu na mesma época em que surgiu o PT, fundado pelo então metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva, que vem a ser o atual presidente da República. A coluna Zona Franca cansou de descer o sarrafo em Lula e nos seus correligionários rondonienses.

Certa vez a ex-senadora Fátima Cleide (PT), comentou comigo: “Eu sofri o pão que o diabo amassou na coluna Zona Franca”. Verdade. A coluna atacava demais os petistas de Rondônia. Mas, atacava também políticos e personalidades da direita. Na verdade, era uma metralhadora giratória, atacando a tudo que mexia contra os interesses do dono do jornal e de quem ele defendia.

Um dia, o ex-presidente do Beron, Paulo Saldanha, adentrou esbaforido, na sede do jornal na avenida Tiradentes. Eu estava numa mesa escrevendo a coluna. Pelo vidro que separava a redação da sala do editor, parecia que ele estava colérico, esbravejando. Queria saber quem era o autor da coluna Zona Franca, no caso, eu. Risos. Mas, na verdade, eu não sabia o que estava acontecendo. Nem lembrava que tinha escrito algo contra ele que foi acalmado pelo editor. Mas, se escrevi, foi a mando de Mário Calixto, claro. Depois do Saldanha vieram outros em minha direção, com intenções nada democráticas. Mas, MC sempre assumiu os BO. Nunca me deixou desprotegido.

Quando MC ditava a coluna, eu pensava comigo: “Vai dar BO”. E dava! Mário recebia telefonemas de atingidos pela coluna. Dava risadas. Ele se divertia. Geralmente ele descobria os “podres” dos políticos que eram obrigados a sentar com ele. Mas, recebia muitos processos na justiça também.

Como essa pauta terá muitos capítulos, aguardem a parte 3. Antes quero destacar que meus primeiros contatos com a família Calixto se dá quase duas décadas antes. Ainda no Colégio Dom Bosco, aos 15 anos de idade, estudei com Mateus Calixto (no primeiro círculo, à esquerda), irmão mais novo de Mário Calixto. O ano era 1975. Nesta época nem sonhava em ser jornalista. Aliás, não almejava nada. Não tinha maldades no coração, só amor para dar.

Nesta época a família Calixto era dona apenas da loja de eletrodomésticos Rondolar, que ficava ali na Barão do Rio Branco, no centro de Porto Velho, salvo engano. Mateus era um menino louro, cabelos lisos, magrinho, alegre e sorridente. Participou com a nossa turma do retiro espiritual, que era marca do Colégio Dom Bosco, dirigido por padres. Anos depois ele morreria, num acidente, em São Paulo.

Mário Calixto tinha os irmãos por perto, mas eles não atuavam no jornal. Apenas Maurício Calixto, mas, indiretamente, já que era advogado e atuava em outras áreas do grupo, como na rádio e TV, tendo sido eleito deputado federal em 1990.

A história da coluna Zona Franca

(*) Roberto Kuppê é jornalista, articulista político e assina a nova coluna Zona Franca no Mais RO

Contato: [email protected]