Tragédia e Triunfo Cinta Larga. Em três Atos

Artigo – Por Reginaldo Trindade*

opiniao de 07Desde que o maldito garimpo foi descoberto/impulsionado, há aproximadamente 15 anos, morreram dezenas (centenas) de pessoas. Apenas no momento mais triste, havido em abril de 2004, 29 vidas se perderam no conflito que se estabeleceu na região.

No entanto, hoje a situação é ainda mais grave que era naquele fatídico abril.

De fato, todo o contexto que antecedeu e mesmo provocou aquela tragédia ainda está presente hoje (diamantes, privações dos índios, milhares de pessoas querendo roubar as riquezas e governo omisso).

Além disso, hoje há algumas circunstâncias agravantes que não aconteciam naquela época: drogas, bebidas alcoólicas, armas de fogo e prostituição já entraram na reserva e não demonstram a mais mínima vontade de querer sair.

Hoje há garimpeiros casando com índias adolescentes (de 13, 14 anos de idade) ou anciãs (de 60 anos de idade), não por amor ou para constituir família, mas para ter acesso privilegiado ao diamante.

Se em 2004 o risco de conflitos entre índios e garimpeiros era muito grande, hoje, além desse risco, há outro ameaça talvez até maior: o risco de embate entre os próprios índios, porquanto embora a comunidade seja contra a exploração, ainda há uma meia dúzia de lideranças que insistem em querer nela prosseguir.

Os tempos, assim, são os mais sombrios possíveis…

No entanto, não se escreve para semear a desesperança e o desalento, mas, para com propósito exatamente oposto. Houve três momentos, pelo menos, em 2015 que talvez nos autorizem a sonhar com dias melhores…

1. Carta dos Parlamentares do Brasil em Apoio à Luta do Povo Cinta Larga. Em agosto o MPF promoveu o Café da Manhã com Parlamentares. O objetivo central do evento, a assinatura de um documento solene, incisivo no sentido de denunciar o condenável proceder do Governo Federal do Brasil para com a comunidade Cinta Larga.

No ensejo, o MPF conseguiu a adesão de 25 parlamentares e ex-parlamentares federais, estaduais e municipais, incluindo Governador e Vice-Governador, senador, deputados federais, estaduais e vereadores.

Depois, por ocasião da Caravana da Esperança, sobre a qual se falará mais à frente, obteve a adesão de outros 21 parlamentares.

Leia AQUI a íntegra da Carta dos Parlamentares do Brasil em Apoio à Luta do Povo Cinta Larga.

2. II Ação Social Cinta Larga. Em meados de outubro foi a vez da realização da II Ação Social Cinta Larga, contando o MPF, desta feita, com a boa vontade de mais de 30 (trinta!) instituições diferentes.

Milhares de atendimentos realizados nas mais diversas áreas: expedição de documentos, atendimentos de saúde e odontológicos em geral, realização de exames variados, inscrição em programas do Governo Federal, palestras educativas etc.

Realizada na cidade de Espigão D’Oeste/RO, a II Ação Social propiciou o atendimento não apenas de índios, mas da população em geral, de resto tão carente quanto.

Assim, o evento, a par da concretude desses atendimentos todos (quem espera meses numa fila por um exame ou consulta médica sabe da importância de consegui-los numa só manhã), a Ação Social ainda teve um peso simbólico imensurável: provou que todos nós, índios e não índios, podemos estar muito próximos, como irmãos…

Leia AQUI algumas palavras ditas na abertura do evento.

3. Caravana da Esperança. Coroando um ano abençoado, que sequer terminou ainda, num ensolarado dia de outubro deste ano, o Ministério Público Federal conseguiu algo, senão inédito na história do país, no mínimo bem singular e excepcional.

A proeza: reuniu praticamente todas as autoridades de Rondônia na praça central de Espigão D’Oeste/RO e de lá todos rumaram, aproximadamente 300 pessoas, em comboio de duas horas de duração, até uma aldeia indígena na Floresta Amazônica.

Dentre as autoridades estavam o governador, o vice-governador, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos, vereadores, juízes, promotores, delegados, secretários estaduais e municipais etc.

Não se escreve para reverenciar todas as autoridades que prestigiaram o evento, nem mesmo as muitas que nos ajudaram a realizar a própria expedição. Embora tenhamos uma dívida eterna de gratidão para com todas elas, gravada indelevelmente em nossos corações, acreditamos piamente que todas já foram enaltecidas por todos o suficiente – no dia da caravana e mesmo antes ou depois.

Gostaríamos de homenagear a atuação de alguns heróis anônimos, bravos soldados que não mediram esforços para que o evento tivesse lugar.

Dentre tantos, o Coronel Nery, que já havia ajudado muito inclusive na II Ação Social Cinta Larga, e o Coronel Sílvio, outro guerreiro para todas as horas e todas as tarefas.

Descendo na escala hierárquica, tão considerada pelos militares, mas sem diminuir a importância da atuação, temos o Tenente Phillipe. Esse aguerrido oficial, tendo o ideal como motivação – para usarmos suas próprias palavras –, foi um dos responsáveis para que algumas façanhas da Caravana da Esperança. Um dia, talvez, aventuremos a contá-las.

Disse-lhe, durante aqueles dias tão singulares, que, se estivéssemos em uma guerra, daríamos uma medalha a ele (e a várias outras pessoas) por bravura e compromisso com a causa da Justiça.

Como não estávamos em guerra – pelo menos não esse tipo de guerra pelo qual conhecemos o termo – eles teriam que se contentar com a satisfação do dever cumprido, com a consciência tranquila de que estavam ajudando a salvar um povo indígena da Amazônia como única recompensa.

Basílio Leandro, do gabinete do Governador, que chegou até a considerar a causa, indígena ou Cinta Larga, não sei explicar, mas também não importa, dele também. Deve amar mesmo, quanto menos a causa do Povo Cinta Larga, porque não mediu esforços para ajudar, não apenas na Caravana da Esperança, mas até no Café da Manhã com Parlamentares e na II Ação Social.

Muitas outras pessoas poderiam/deveriam ser mencionadas. Por exemplo, Jesiel, Chefe de Gabinete da Prefeitura de Espigão D’Oeste/RO, foi outro valente e disposto servidor para qualquer hora e qualquer problema que aparecesse; Ricardo Prado da Funai, que fez tanto onde há tão pouco; os servidores do MPF, cada um com suas virtudes e seus defeitos, como é próprio de todo e qualquer ser humano.

Não desconhecemos o enorme risco que corremos ao enaltecer o trabalho de uns poucos numa epopeia que foi fruto da dedicação de tantos.

Aos muitos que não foram mencionados expressamente rogamos que entendam que, seres humanos como somos, não raro, mesmo querendo acertar, erramos feio. Mesmo querendo fazer justiça a tantos que fizeram por merecer, cometemos a maior injustiça.

Todas essas pessoas, esses agentes públicos da melhor estirpe, precisam ser valorizados e reconhecidos. A valorização não precisa ser obrigatoriamente pela engorda do salário. Nem só de pão vive o homem.

Não raro, um muito obrigado sincero já provoca um efeito impressionante. Verdadeiro milagre. Na pessoa que dá e na que recebe.

A Caravana da Esperança foi um momento mágico nessa luta tão difícil, de tão poucos resultados em comparação a tantos esforços empreendidos. Ela teve vários momentos especiais, dentre os quais um, ao menos, merece expressa referência, embora singela.

Havia circulado um vídeo da Câmara dos Deputados, em uma das tantas audiências públicas sobre a famigerada PEC 215, durante a qual o deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP/RS) acusa, grave e diretamente, o Povo Cinta Larga de estar roubando diamantes do Brasil.

Pois bem. A liderança Mauro (Marcelo) Cinta Larga, no discurso de abertura da Caravana da Esperança, ladeado por todas aquelas autoridades já declinadas, deixou o vídeo preparado em um celular, encostou o microfone no aparelho móvel e apertou o Play, para que todos pudessem ouvir a hedionda acusação.

Suspense no ar…

O que se sucedeu foi algo de arrepiar!

O índio se ajoelhou e disse… Que iria orar por aquele deputado e pela família dele. Iria orar porque quem falava uma coisa daquelas não tinha Deus no coração…

Foi, provavelmente, o clímax da Caravana da Esperança…

Bem, alguns poderão dizer que uma certa declaração de amor, dita quase em lágrimas quando ninguém mais esperava, é que foi o ponto alto do fantástico evento; mas, certamente que não seremos nós a fazê-lo…

Se a curiosidade do bravo leitor ainda permitir, leia AQUI o discurso Eu Tenho Esperança, proferido na ocasião pelo autor dessas linhas. E aguardem porque vem aí a segunda edição da caravana…

Pós-Escrito. Para muitos que ainda não sabem há um time de heróis anônimos semelhantes aos que foram homenageados há pouco, que muito têm feito para ajudar no esforço de reverter a secular história de indignidades que aflige o tradicional povo.

Esse time se chama GRUPO CLAMOR, significando, esta palavra forte e expressiva, Cinta Larga: Amigos em Movimento pelo Resgate; sem falar que tem a virtude de associar as iniciais do povo (CL) à palavra AMOR. Todos que atuam ou já atuaram na defesa de índios num país que tão pouco valoriza seus habitantes mais tradicionais sabem que somente com muito amor se chega a algum lugar. Quando se chega…

Você pode tomar parte na história dos homens que lutam pela dignidade do Povo Cinta Larga. Você pode associar-se ao Grupo Clamor. Não precisa ter qualificação alguma. Basta apenas que tenha um bom coração e queira ajudar o seu semelhante (sim, o índio é um semelhante nosso!) que está em grande dificuldade. Procure o Ministério Público Federal em Porto Velho/RO…

Fonte: MPF/RO (www.prro.mpf.mp.br)

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