Imagem ilustrativa: Tarzan e o Menino da Selva (1968)
Por Roberto Kuppê (*)
Era uma tarde, no ano de 1968, não sei exatamente a data, quando minha mãe, dona Petronina, com seus 30 e poucos anos, já viúva do meu pai (ele morreu em 1965), foi colher milho no nosso sítio (Sítio Santa Luzia) que ficava no km 10, próximo a Guajará, quase de frente à serra do Parecis. Minha mãe levou consigo, pra ajudar, o afilhado dela, Wilson, que tinha 10 anos e era filho de um conhecido açougueiro chamado Faz Tudo, que é pai do ex-jogador Manoel Freitas Menezes, também apelidado de  Faz Tudo (Moto Clube), falecido em maio de 2019.
Os dois, minha mãe e o menino foram para o milharal naquela fatídica tarde. Estava chovendo. Minha mãe colhia milho num lugar e o menino mais um pouco afastado, fora do alcance dos olhos dela. O barulho da chuva abafou a voz de minha mãe quando ela gritou pelo Wilson, para voltarem para casa. Passados alguns minutos, ela foi procurá-lo milharal adentro. Não o encontrou. Voltou para a casa do sítio na esperança de que ele tenha retornado devido a chuva. Não tinha voltado. O desespero tomou conta de minha mãe. Voltou ao local e nada de reencontrar o afilhado dela. Então ela acionou a vizinhança do sítio para ajudar a procurar e nada. Mandou alguém à cidade avisar à família que o menino havia desaparecido misteriosamente. A polícia foi acionada. Fizeram uma busca no local e encontraram o terçado que o menino usava para tirar o mato fincado numa tora de madeira e o saco de sarrapilha com algumas espigas de milho jogado no chão. Nada do menino. Nem rastros, nem pegadas.
O desaparecimento do menino Wilson parou a cidade de Guajará-Mirim. O acontecimento foi noticiado na rádio Educadora com ênfase. A família do menino buscou ajuda no Exército. Uma verdadeira operação de guerra. Dezenas de soldados fizeram um acampamento nos arredores do sítio. Três caminhões do Exército davam a impressão que ali haveria um embate. Eu, com meus sete anos, achava tudo aquilo bacana, fantástico. Muita comida, lanches, sucos. Para mim era uma festa.
Mas, o caso era sério. Os soldados do Exército se embrenharam na mata fechada em busca do menino de 10 anos que havia desaparecido no dia anterior. Era o assunto nas rodas de conversas em Guajará-Mirim, porque a família “Faz Tudo” era bem conhecida. Por vários dias o exército procurou, procurou e nem um rastro encontrou. Até indígenas que conheciam a região ajudaram na busca, mas nada encontraram. Meus irmãos mais velhos, o Armando, então com 19 anos, Chiquinho com 16 e Matheus com 12 ajudaram na busca também. Minha irmã Marli, então com 11 anos, cuidava de minha mãe. A pressão era grande contra ela. No momento do desaparecimento, todos estavam na cidade, em casa. Eu, porém, não me lembro se estava no sítio ou em casa.

“Não gostei de reviver esses momentos. Foram dias muitos ruins para nossa família”, meu irmão Chiquinho.

“Você deveria esquecer isso. Já sofremos muito. Nossa mãe sofreu muito”, minha irmã Marli Moraes.

“Estou arrasada ao saber disso tudo. Minha mãe sofreu muito. Já chorei muito depois de ler isso”, minha irmã Maria Luzia.

“A família do menino também sofreu muito”, eu, RK.

Após dias, encerraram as buscas exaustos e decepcionados.  A essa altura, minha mãe se sentia a mais culpada das pessoas nesse episódio. Sofreu muito e foi até hostilizada pela família. Chegaram a desconfiar dela, que poderia ter matado o menino e escondido o corpo. Mas, nenhuma evidência de um crime foi encontrada.
Mas, no meio dessa tragédia, minha mãe que era viúva, 36 anos, ainda encontrou tempo para se apaixonar por um sargento do Exército, de nome Meirelles, que acompanhava as buscas. Desse amor na floresta, surgiu uma filha, a Luzia que vem ser a minha irmã que hoje tem 52 anos. O nome, Luzia, foi em homenagem à Santa Luzia, que dava o nome ao nosso sítio.
Passaram-se meses e minha mãe resolveu mudar de Guajará-Mirim para Porto Velho em 1969. Eu e meus irmãos fomos de Maria Fumaça (EFMM). Que viagem bonita e emocionante! Lembro como se fosse hoje, da fumaça, do apito, da brasa que saía do “forno”, pois o trem era movido à lenha.
Minha mãe viajou de Catalina, avião híbrido, que pousava na água. Em Porto Velho, ficamos hospedados numa casa na Carlos Gomes, ao lado do Bar do Canto. Depois fomos para uma casa alugada na Liberdade. Só no início da década de 70 é que fomos para as Pedrinhas.
E o menino continuava desaparecido misteriosamente. Lá pelo ano de 1970, uma Veraneio da Polícia Civil estacionou em frente da nossa casa. Tinham uma intimação para levar minha mãe para Guajará-Mirim, pois um “vidente” havia dito que sabia onde estaria o corpo do menino. Levada no camburão, minha mãe chorava. Ao chegar no local onde estaria o corpo, nada encontraram.
E se passaram anos e décadas. E até hoje não se sabe ao certo o que aconteceu. Após esse episódio, minha mãe nunca mais voltou em Guajará-Mirim e hoje está com 88 anos, residindo em Maceió-AL.
Bom, os senhores leitores devem estar se perguntando agora: e o que poderia ter acontecido?
Índios! Índios selvagens podem ter raptado o menino de 10 anos. Na época relatada neste artigo, a historiografia chamava os indígenas de Boca Negras. De acordo com a ativista Neidinha Suruí, da Kanindé Ambiental, nesse período, 1968, habitavam a região os Oro Waram, Karipuna e Oro Warajamixem. A região envolve os rios Karipuninha, Formoso e Oriente, além claro, do Jaci Paraná, Mutum, Igarapé Azul. Haviam muitos indígenas que morreram por massacre, doenças como gripe, tuberculose, sarampo entre outras. Muitos povos foram extintos e nem se sabe o nome.
Quem souber detalhes desta história, por favor, pode compartilhar com a gente. Precisamos saber o que aconteceu naquela tarde chuvosa, no nosso sítio, em Guajará-Mirim. Porque até hoje minha mãe carrega essa culpa. E até hoje ela sonha e conversa com esse menino. E eu, que tinha apenas sete anos quando o fato ocorreu, as vezes sinto que pessoas de Guajará-Mirim me olham com desconfiança. Ninguém fala nada diretamente, mas desconfio de que alguma coisa falam á boca pequena.

P.S.

ABEUEssa é uma ma história verídica, que aconteceu com minha família, envolvendo minha mãe, Petronina, e o nosso sítio em Guajará-Mirim (RO), por volta do final da década de 60.  Existem muitos relatos de desaparecimento de pessoas semelhantes ao texto acima. Tem um livro escrito pelo senador Confúcio Moura (MDB-RO), A Flecha (2002), que conta a história do desaparecimento de um menino na região de Ariquemes (RO). Agora mesmo, a questão de dois ou três dias, aconteceu um desaparecimento em Guajará-Mirim. Helicóptero do Corpo de Bombeiros foi utilizado para as busca do senhor Edmilson Freitas, desaparecido na mata do Serra Grande. Recebi também o relato forte e impressionante de uma amiga e leitora deste site. Trata-se de uma história que envolve o bisavô dela. Leiam na íntegra:
“Meu bisavô tinha um seringal e lá os índios mataram a esposa e os filhos de um tio do meu pai , mas uma menina nunca foi achada. Meu tio conta que, quando meu bisavô e uns jagunços foram matar os índios, acharam as cabeças penduradas na aldeia mas a da menina nunca acharam. Esse tio do papai virou alcoólatra o tio Rui , excelente dentista, que se perdeu na bebida, vivia junto à Funai procurando a filha. Porém, antes de morrer, acharam uma mulher loura numa tribo no Pará ele chegou a ir lá , mas já era adulta e não reconheceu como filha. O seringal do meu bisavô era onde hoje é o distrito de União Bandeirantes. Aquelas terras era o seringal do bisavô Cirilo. Falavam que os índios eram canibais naquela região”. Impressionante né?
(*) Roberto Kuppê é jornalista e filho de dona Petronina.
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