Espigão do Oeste, em RO exporta malária grave para cidade irmã capixaba

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Separados por mais de 3 mil quilômetros, os moradores de Espigão do Oeste (RO) e de Vila
Pavão, noroeste do Estado do Espírito Santo, compartilham cultura, raízes e pessoas. Esse trânsito intenso entre as duas cidades pode ter contribuído para a propagação de malária no município capixaba e em sua vizinhança.

A suspeita ainda não foi confirmada, mas governo e especialistas citam o frequente
movimento de pessoas entre Rondônia, onde a malária é endêmica, e a região noroeste do
Espírito Santo como uma das prováveis formas de introdução da doença. “Aqui isso é comum. Há esse fluxo de pessoas que visitam parentes.mA grande suspeita é de que de fato tenha vindo daquela região, até porque aqui não havia casos há anos”, afirmou o prefeito de Vila Pavão, Irineu Wutke.

É na cidade pavoense que se concentra a maior parte dos doentes de malária, 62. Os outros 18 foram identificados em Barra de São Francisco, município vizinho. Uma pessoa
morreu.

Festa Pomerode em Espigão do Oeste, 1990

Cidades-irmãs por decreto, Espigão do Oeste e Vila Pavão separam famílias e amigos que, frequentemente, se visitam. A comerciante Iracy Foerste, 51, perdeu a conta de quantas vezes viajou. “Quando era mais nova, ia todo ano. Era nossa viagem de férias. A família dos meus pais mora toda lá”. Como Iracy, boa parte dos moradores da cidade têm parentes na região Norte do país. “Com a crise do café no final dos anos 1970, cerca de mil famílias deixaram Vila Pavão e foram se instalar no Norte do país, principalmente em Espigão do Oeste. Na época, três paus-de-arara por semana passavam levando o pessoal para lá. As pessoas se despediam nas ruas, era uma choradeira danada”, relata o sociólogo Jorge Kuster Jacob, que estuda a relação cultural entre as duas cidades. Por conta da imigração, Espigão do Oeste, em Rondônia, segue várias tradições pomeranas, como cerimônias, danças e festas.

Jorge, que também tem a família separada entre os dois estados, afirma que já foi para
Rondônia seis vezes. “Pouca gente que foi naquela época, voltou. Hoje em dia o que
acontece é mais de as pessoas visitarem os parentes”, diz.

A viagem, ofertada semanalmente em ônibus, custa cerca de R$ 1,2 mil e dura três dias. Iracy conta que, quando estava por lá, soube de um tio com malária e não foi visita-lo. “Estava grávida e fiquei com medo. Lá era normal a gente ver as pessoas com malária. Quando apareceu aqui fiquei até com medo”, relatou. Como a mãe dela, de 71 anos, voltou de Espigão do Oeste há 20 dias, foi direto para o posto de saúde fazer o teste. ”Antigamente, tinha uma pessoa que vinha na casa da gente testar o sangue quando alguém voltava do Norte. Depois nunca mais vi”, lembra Iracy. Conhecido como “malaieiro”, o personagem descrito por Iracy era um funcionário federal da extinta Sucam (Superintendência de Campanhas de Saúde Pública) , que trabalhava como um “vigilante da malária”, evitando que a doença se espalhasse. “Eles passavam de tempos em tempos onde havia transmissão da malária. Mas isso parou de fazer sentido porque não havia mais casos”, esclarece o infectologista Crispim Cerutti Junior. O prefeito de Vila Pavão admite que, com a guarda baixa, a cidade ficou vulnerável ao surto de malária. “Essas figuras que eram comuns, que iam atrás das pessoas, não existem mais. Talvez isso possa ter facilitado esse retorno”, afirma.
Demandada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde afirmou que não há
recomendação da Anvisa para controle de circulação de pessoas entre os Estados do país.

Fonte: Gazeta On LIne

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