Por Roberto Kuppê (*)

                                     Caiu na rede!

Um ano de caso Queiroz e até agora a PF de Sérgio Moro não conseguiu achar o paradeiro dele. Enquanto isso, o STF trabalha. Depois de cinco sessões e quatro dias de discussão, o STF formou maioria na última semana pela liberação de investigações que tenham usado, sem autorização judicial, dados da Receita Federal. Hoje, a expectativa é que os ministros produzam uma tese sobre o assunto e regulamentem também o uso de informações da UIF (Unidade de Inteligência Financeira), novo nome do Coaf. A decisão será crucial para as investigações que envolvem o senador Flávio Bolsonaro (sem partido).Nas últimas sessões, os 11 ministros já votaram, sendo que 9 defenderam que a Receita não precisa de autorização para o envio de dados ao Ministério Público ou à polícia, no caso de suspeitas de crime.

                                Tempo ruim pros Bolsonaros

Não está nada fácil para o clã Bolsonaro neste final de ano. A suspensão do deputado federal Eduardo Bolsonaro do PSL, assim como o afastamento da liderança da sigla na Câmara dos Deputados, fez com que o filho do presidente Jair Bolsonaro adiasse por tempo indeterminado a realização da Cúpula Conservadora das Américas, que ocorreria em Fortaleza (CE) neste mês. Em outubro deste ano, ocorreu outro evento conservador encabeçado pelo filho do presidente. A edição brasileira do maior evento conservador dos Estados Unidos, o CPAC (Conservative Political Action Conference) teve seus gastos arcados pelo Instituto de Inovação e Governança (Indigo), vinculado ao PSL. O Indigo é financiado com verbas do Fundo Partidário, ou seja, dinheiro público. No ano passado, o Instituto recebeu cerca de R$ 1,8 milhão. O presidente do instituto é Sergio Bivar, filho de Luciano. Porém, segundo a assessoria do evento, ele não participou da organização. Desde o início das divulgações dos palestrantes, o CPAC se mostrou um verdadeiro palanque do bolsonarismo.

                                          Só a esquerda

Parecer que a dor pela perda dos nove negros e pobres ocorrida no último domingo em Paraisópolis, bairro periférico de São Paulo (SP), só foi sentida pela esquerda. Somente parlamentares da esquerda manifestaram suas indignações com o massacre. E apenas o vereador pela capital paulista, Eduardo Suplicy, do PT, foi ao enterro de uma das vítimas. Está na hora de toda a população brasileira, independente de cor partidária passar a se indignar também. Na próxima tragédia (que com certeza ocorrerá) façamos de conta que é um Gugu Liberato da vida, de cuja morte, de A a Z, todos se compadeceram.

                                          Ao Deus dará

Nossa juventude está à deriva, ao deus dará há décadas. As populações negras e menos favorecidas são as mais atingidas pelas injustiças praticadas pelos organismos de segurança, à despeito de fazer cumprir a lei. É desigual e desproporcional a força empregada para buscar esse objetivo. Os jovens das periferias estão ao Deus dará, principalmente os menores de idade, consumindo álcool e drogas ilícitas e as meninas sendo engravidadas num momento fortuito. As leis que proíbem a permaneça de menores e o consumo de álcool não são cumpridas. É vedada com pena de prisão vender bebidas alcoólicas para menores, mas até hoje ninguém foi preso. A permissividade é geral, tanto para quem vende, quanto para quem compra. No intervalo disso as drogas ilícitas ganham terreno e mais consumidores. Neste momento quando este governo fala tanto em moralismo, por que ainda não fizeram cumprir as leis que já existem?

                                            Aos Deus dará 2

Em tempo de redes sociais, os pais, coitados, não têm força para impedir que seus filhos vão para as ruas. Muito pelo contrário. No festival do vale tudo (ah, que se f..), pais estão liberando seus filhos e seja o que Deus quiser. Uns vão para os shoppings, que, a princípio, seria mais seguro. Mas não é. Outros vão para as ruas, praças, regadas a drogas ilícitas e bebidas lícitas. O resultado de tudo isso foi o que aconteceu em Paraisópolis e que se repete Brasil afora. Os mais fracos perecendo mais fácil diante da força policial.

                                             Tem saída?

É claro que tem saída. É só fazer cumprir as leis e criar programas sociais que atinjam principalmente as camadas mais pobres da população periférica. Assim como a Lei Seca é um projeto de sucesso, que já salvou a vida de milhões de motoristas, uma Lei Seca Jovem (digamos assim), poderia ser implementada. Nas escolas devem ser ministradas aulas de boa música, com doses cavalares de João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Ellys Regina, dentre outros. Leitura de livros devem ser incentivadas. A prevenção às drogas e à gravidez de crianças devem ser motivos de preocupação todos os dias nas escolas. Sem rumo, os jovens tomam o único caminho que lhes apresentam, sendo encurralados nas vielas sem saída de uma Paraisópolis da vida. A solução, portanto, está na Constituição Federal e no Código Penal, bem como no Estatuto da Criança e do Adolescente vigentes. Não tem que inventar lei nenhuma mais.

                                                 Reeleição

Enquanto políticos só trabalhem pensando em reeleição, esse quadro descrito acima estará difícil de mudar. Políticos como o ministro Sérgio Moro, ex-juiz (péssimo juiz, por sinal), está em plena campanha política para 2022. Não deu um pio sobre o massacre de Paraisópolis. Os governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro, João Dória Júnior (PSDB) e Wilson Witzel (PSC), respectivamente, estão incentivando a barbárie em vez de contê-la, com vistas à sucessão presidencial daqui a três anos. Esse é o quadro lastimável de nossa política.

 

(*) Roberto Kuppê é jornalista e articulista político no eixo Rio, Brasília e Rondônia

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