O criador e a criatura, segundo José Armando Bueno

Hildon, ano II- publicado originalmente em A CAPITAL 

Por José Armando Bueno(*)

Vou iniciar esta trilogia sobre o prefeito de Porto Velho, Hildon Chaves (PSDB), olhando pra frente, tendo como base o retrovisor do que passou. Penso que uma trilogia possa abarcar o que planejei, mas eventualmente poderá transformar-se numa tetralogia ou pentalogia, a depender especialmente dos “notáveis” desdobramentos que a gestão Hildon Chaves e a política prometem para este 2018. Para colocar pingos nos is, “notáveis” é um adjetivo subjetivo, porque pode referir-se a algo muito bom e positivo ou seu oposto. O que não significa, de pronto, um pré-juízo e sim um conceito de incerteza ou surpresa. De concreto duro e certo, apenas esta foto, do Criador com a Criatura. O que diz muito. Vamos conferir?

HILDON, O POLÍTICO  |  Pra iniciar esta conversa é preciso colocar outro pingo no i: Hildon Chaves sempre foi político. Essa conversa de boteco de que ele “nunca” foi político é uma construção da conveniência, tanto dele quanto seus seguidores inanimados – do efeito manada – ou muito animados – do efeito cargo comissionado. Desde sempre Hildon ocupou posição pública de notória responsabilidade, como promotor de justiça. Portanto, na carga objetiva do adjetivo “político”, Hildon sempre esteve às voltas com negócios públicos, inclusive com poder de decisão sobre interesses públicos e privados. É da natureza do Ministério Público, ora pois.

Hildon, você sabe que não é esse virgem na política de palco, e muito menos na política  em que os holofotes não têm acesso. Muito longe disso. Aprume-se para a tua estatura.

EXPEDITO, O MENTOR  |  Seu maior desafio em 2018 é mais que evidente: ser ele mesmo e tomar decisões sem a interferência, por vezes danosa, do seu criador e perigoso mentor Expedito Júnior. Até as paredes da prefeitura já sabem quem manda. Expedito tem poder sobre as decisões do prefeito e da operação da prefeitura, desde o topo à base. Negar é como querer esconder o sol com a peneira. Expedito está em desespero para sua última oportunidade política: ou se elege ou está fora de qualquer tabuleiro. E o risco de não eleger-se é grande demais, daí a pressão sobre o prefeito e a prefeitura. E nessa embalada doida, vem a decisão de alto risco: Expedito terá de ir para o PSD, ou será apenas um quadro na parede do PSDB. Se tanto. E terá de levar o prefeito. A tiracolo. Sim, porque ele não tem vontade própria nesta seara partidária. Duvidam? Aguardem as águas de março fechando o verão.

2014, A ORIGEM  |  Pra entender de onde vem tanto poder, é preciso conhecer a origem de tudo. A escolha do candidato e vice-prefeito, Edgar do Boi, não foi feita por Hildon. Longe disso. E quando ele afirmava que conhecia Edgar do Boi há mais de 20 anos, era apenas para consumo da mídia. Longe disso. Bem longe. Edgar do Boi é apenas uma peça no tabuleiro do Expedito. Nada além disso. Em 2014, quando candidato ao governo, Expedito “trouxe” Neodi como vice, num acerto bem interessante para ambos. E, claro, não tem nada a ver com o PSDC, um partido fraco, desarticulado e agora morto. Como disse, era um acerto de interesses. Boi foi indicação direta de Expedito, como pagamento de parte da conta de 2014, que reverbera até hoje. Sim, Expedito é conhecido como o lobo em pele de cordeiro, que tudo promete e nada cumpre, ou só cumpre aquilo que é do seu interesse imediato.

Expedito, anote: como na economia, a política não é – e nunca foi – um jogo de soma zero. Certamente por isso você tem colhido sucessivas derrotas. Quando é que você vai entender isso?

BASE ESTRAÇALHADA  |  Bem, a tal da base aliada do prefeito é, hoje, estraçalhada, uma colcha de retalhos. Fragmentou-se e os vereadores aproveitaram-se de tantos erros e desacertos desde a primeira hora. Ao fragmentar-se estrategicamente, a base colocou o prefeito na condição de ter de negociar caso a caso. Sempre vai sair mais caro o molho que o peixe. A começar do presidente da casa, o prefeito não tem mais aquela unanimidade burra, surda e conveniente. Maurício Carvalho tem seu último ano – eleitoral – como presidente e sua última janela para, de fato, construir algo que se pareça com uma carreira política. E sair candidato a deputado estadual é uma operação de altíssimo risco. Com sua irmã, Mariana, e sob a tutela do capo do clã, tomaram o comando do PSDB. Não havia alternativa, apesar da quase troca de tiros com Expedito Júnior, que não queria largar o osso ou o que restou dele. Sim, o PSDB é apenas um arremedo de partido e 2018 vai provar o que estas linhas registram. Ou Hildon recompõe a base ou terá tantos problemas internos quanto Michel Temer, hoje vendido em praça pública. A preço de banana. Querem ver?

Hildon, quando você chegava à Câmara, todos o recebiam em mesuras, protocolos, sorrisos, selfies. Hoje, nem as moscas te olham. Até membros da base aliada escondem-se.

GABINETE, NEVRÁLGICO  |  A área que originou esse desastre político e que demonstra a total submissão de Hildon Chaves aos desmandos de Expedito Júnior, é a chefia de gabinete, ponto nevrálgico da gestão. O primeiro, todo mundo quer fugir dele como o diabo da cruz. Breno Mendes deixou saudades apenas nas donzelas contratadas em listas, para servir não apenas a ele. Fiel escudeiro de Expedito Júnior, infiltrado na campanha de Leo Moraes como um oportunista profissional, Breno é apenas mais um espertalhão. Nada além, e quem o conhece sabe disso. Quando foi exonerado por abusos de toda ordem, em maio, assumiu o gabinete por determinação de Expedito Júnior seu, digamos, ajudante de ordens, Luiz Fernando Martins. Fraco, inseguro, sem capacidade para decidir até o que falar, Luiz Fernando ajudou a empurrar a base aliada para o desastre político da fragmentação. Nenhum vereador, secretário ou qualquer pessoa com algum poder de decisão, quer ter interlocução com ele. A chefia de gabinete paira no vácuo das indecisões do prefeito. Agora, os bastidores transpiram e conspiram outro nome, outro desastre que atende pelo nome de Guilherme Erse, que dá expediente por apenas uma hora na sala da primeira dama, cospe ordens e impropérios, e vai embora. O prefeito pode negar que vá nomeá-lo chefe de gabinete, mas as paredes não. E Guilherme Erse, que hoje é “Assessor de Políticas Governamentais”, é outra ponta da conta de Expedito Júnior da campanha de 2014, quando tomou de assalto o PSD de Moreira Mendes para entregá-lo ao filho, hoje deputado federal, numa manobra radical e que deixou sequelas. Hildon não tem janeiro para decidir o que fazer, sob pena de entrar fevereiro queimado feito carvão. Novamente às expensas de Expedito Júnior.

MÁ GESTÃO  |  A pauta de 2017 não pode ser a de 2018. Hildon comete grave erro em concentrar sua maior força operacional em deitar asfalto quente nas ruas, enquanto a cidade clama por demandas não atendidas na saúde, na educação, na mobilidade urbana, tudo fruto de má gestão. Os médicos não cumprem seus horários e muito menos suas mínimas obrigações contratuais e da profissão. Que o diga Hipócrates e Hildon é amigo de quase todos eles. Jogou a toalha por conveniência. Os interesses sorrateiros em toda a máquina da administração impõem sua vontade imperial, e o ex-promotor, o xerife tiro-porrada-e-bomba, aquele que conhece um bandido em dois minutos e com a caneta na mão, é incapaz de domar tais interesses. Creche? Falta de remédios? Licitações travadas? Mãos amarradas? Vamos mudar de assunto! Hildon demorou onze meses para sair das garras do seu chefe da PGM, que lhe impôs um tal de Marden na SEMTRAN. Porquê tanta submissão (?) até os semáforos da cidade se perguntam. De fato, o prefeito não tem um “Plano Marshall” para Porto Velho, nada que se assemelhe a algo estruturado, pensado, planificado.

CEGO. E SURDO  |  Na guerra da mídia, Hildon é apenas mais um gestor que paga para ter e manter uma boa imagem. A mídia chapa branca agradece. Isso funciona bem, porque até o governador é incensado, ainda que tenhamos 790 mil miseráveis no estado (IBGE/2017), que não sabem o que vão comer amanhã. Hildon ganhou as eleições com inegável triunfo nas redes sociais, notadamente no Facebook. Claro, como responsável eu sei o que fiz e o que provoquei na mente das pessoas para levar Hildon do nada ao Olimpo. Fui pago para isto. Mas Hildon é difícil de ouvir e o pior cego é o surdo. Afinal, são as escolhas. E o retrovisor aponta: a partir de março, com a sucessão de erros e titubeios, o crescimento de fãs e seguidores nas redes sociais do prefeito sofreu enorme baque, desabou mesmo, para não mais retomar a curva exuberante de crescimento. A propaganda oficial, horrível desde o início, ganhou nova estética. A pílula dourada sempre amortece o sabor amargo da verdade. Se a estética melhorou, o conteúdo continua pobre, miserável, insustentável até, o que contribui fortemente para a anemia do prefeito nas redes sociais, exclusivamente retroalimentada por cargos comissionados e seguidores apaniguados. Uma lente rápida mostra isto à soberba, com o alerta de sempre: fãs e seguidores, não são eleitores.

HILDON MARIA CHAVES  |  A partir de março deste 2018 o prefeito será submetido a notável teste de estresse. Primeiro, terá de migrar para o PSD de Expedito Júnior, o que por si só terá o impacto de uma hecatombe a partir da base peessedebista, já em desmonte. Também, desde que tomou posse e tido como ídolo de massas, Hildon tem sido assediado – ainda que por vezes traído – pelas bancadas federal e estadual. Todos o querem no palanque de 2018, e isto representa posição insustentável sob qualquer prisma. O eleitor, visto como marionete, um bobo nessa corte de interesses inconfessáveis, sabe fazer suas leituras e agir como animal camuflado. Hildon foi eleito por esse eleitor, que domina a camuflagem e faz suas escolhas independentes e de forma inteligente. Se o poder fosse poderoso e o eleitor um miserável voluntarioso, Mauro Nazif teria sido reeleito ou Pimental seria prefeito. Portanto, candidatos, o palanque de Hildon Chaves é uma faca de dois legumes. E o primeiro perdedor é o próprio, que será visto como, digamos, o “Maria vai com as outras”. E Hildon Maria Chaves pode até combinar, mas não cai bem.

BALA DE PRATA  |  Enfim, prefeito, estas linhas iniciais de uma trilogia bastante simplificada, vão compor o quadro que vai emoldurá-lo – ou amarrá-lo em 2018 –, e que se provará verdadeiro antes da campanha eleitoral começar, em 16 de agosto. Claro que existe o risco, ainda que mínimo, de eu estar errado Hildon, mas posso lhe assegurar que isto não vai acontecer, porque desse riscado eu entendo. No máximo, um paninho quente aqui e outro acolá, mais uma douradinha na pílula aqui e outra lá, mas isto não vai alterar a partitura, porque serão apenas alguns acordes desafinados de uma música bem escrita e executada. O que é certo Hildon, é que você pode ter – ou tem – a oportunidade suprema e única de mudar. É uma bala de prata e terá que ser utilizada antes de 16 de agosto. Caso contrário você vai caminhar para o seu fim em si mesmo até 2020, tornando verdade a máxima popular de que Porto Velho é cemitério de prefeitos, e os enterra para um requiem aeternam. Até breve.

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(*) José Armando Bueno é jornalista e editor de A CAPITAL 

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