Foto: Reprodução/ Le Monde
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por Claire Gatineau, no Le Monde / Tradução: Joana Francesa

Um ministro foi suspenso por ter apoiado o impeachment para obstruir a justiça.

Depois de menos de quinze dias de existência, o novo governo brasileiro, por sua vez, foi pego na tormenta do escândalo de corrupção Petrobras. Segunda-feira, 23 maio, Romero Jucá, Ministro de Planejamento e próximo do presidente interino, Michel Temer, veio alongar a lista dos políticos brasileiros sem escrúpulos, semeando mal-estar dentro da equipe no poder desde 12 de Maio e na abertura de impeachment (destituição) lançada contra a presidente de esquerda, Dilma Rousseff.

Em uma interceptação datada de março, divulgada segunda-feira pelo jornal Folha de São Paulo, Sr. Jucá, quadro do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB, centro-direita) diz inequivocamente ao seu interlocutor que é necessário executar uma “mudança” do governo para “estancar a hemorragia” causada pela investigação “Lava Jato” (“lavagem express”), esta operação que revelou o escândalo de corrupção triangular orquestrada entre a agência pública – Petrobras, as empresas do BTP e os líderes políticos de todos os matizes. O homem conversa com – Sergio Machado -, ex-presidente da Transpetro, uma subsidiária da Petrobrás. Ambos estavam preocupados com a “Lava Jato.”

Trechos: “Que merda! Que merda! Como construir uma estrutura para que eu não me ferre !?” Diz Machado. “Todo mundo está para ser comido”, disse Jucá mais tarde. “O primeiro a ser comido vai ser o Aécio”, diz o amigo, evocando Aécio Neves, candidato à eleição presidencial de 2014 para o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), naquele momento na oposição. “É preciso o impeachment, não há saída”, concluiu o Sr. Jucá, que também explica ter falado com os juízes do Supremo Tribunal. E acrescentou: “Temos de resolver essa merda, é preciso mudar o governo para parar a sangria ..”

Recebido no Senado com os gritos de “golpista”, Michel Temer decidiu segunda-feira suspender seu ministro a tempo de esclarecer a situação, mesmo que ao ouvir o advogado do Sr. Jucá, citado pela Folha de São Paulo, dizer que nada há de ilegal nesta conversa.

Pretexto

O presidente em exercício, acusado pelo Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda) da presidente Dilma Rousseff de conspirar para tomar o poder, está em apuros. Este caso dá credibilidade à tese do “golpe” denunciada pelo PT, dizendo que o impeachment com base em acusações controversas de manipulações contábeis, era meramente um pretexto para tomar o poder. Ao lado do PT, uma grande parte dos artistas, especialmente ofendidos com a decisão inicial do Sr. Temer, já revogada, de excluir o Ministério da Cultura. A conversa telefônica do Sr. Jucá, deve agravar esse sentimento de revolta.

“Vamos lembrar que ainda não houve o impeachment”, afirma o cientista político Marco Antonio Teixeira Carvalho. A presidente Dilma Rousseff está, nesta fase, afastada do poder por cento e oitenta dias antes de o Senado decidir removê-la ou não permanentemente. Os problemas do novo governo poderia, de acordo com Carvalho Teixeira, ajudar no seu retorno ou avançar a ideia de eleições antecipadas.

A rua, que pediu o impeachment de Rousseff denunciando a corrupção transformada em sistema pelo PT pode de fato se sentir enganada. “Pensar que o impeachment resolveria o que quer que seja era uma ilusão, suspira o cientista político Carlos Melo, professor no Instituto de ensino superior Insper. É todo o sistema político que está em colapso.”

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