Conjuntura mundial e educação

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Por Vinício Carrilho Martinez – UFSCar 

 

Relatar as interfaces e os impactos entre três potências, como se sugere no conjunto “Democracia, Educação e Direitos Humanos”[1], não é uma tarefa simples e que se faça apenas com a racionalização conceitual – sempre guardando algum idealismo – ou, inversamente, resumindo-se a análises cotidianas, cheias de verificação de limitações e imperfeições teóricas.

Quando vemos isoladamente a Democracia ou alguns de seus efeitos, sobretudo a democracia no âmbito eleitoral (democracia representativa), logo nos vem à mente o processo eleitoral de 2018 no Brasil (e a sequência de fatos entre 2019 e 2022), ou as eleições argentinas de ontem (19/11/2023), que lhes estabeleceram um novo marco institucional: a eleição de um presidente ultraliberal, ideólogo “anticlasses”.

Ainda que seja muito estranho em suas próprias relações com a política, o povo argentino aprenderá conosco algumas condições diretas: eleitores/as (ou não) conhecerão o ódio social em profundidade. O político argentino da ideologia vencedora de lá, com base na realidade de extrema direita que derrotamos em 2023 (fascista), pelo voto, fez-se com apelos de “basta” e com os recursos da desilusão política – daí o significado de se apresentar como político anticlasses.

Quer dizer, o político argentino se apresentou como “crítico do sistema”, como se fosse o único anjo na Terra – mais santo do que o Papa argentino – e pronto a suprir as decaídas morais, sociais, culturais dos pobres e dos ricos. O povo argentino descobrirá em breve, assim como nós em 2019/2022, que na política não existe nenhum “ente querido” (superior às classes sociais) e que, do caos, advém o ódio social (anarcocapitalista)[2].

Também aprenderão que da ideia de “renovação política” – pautada nesta forma específica de ideologia anticlasse (sem ser propriamente revolucionária) – está embutida a revogação da segurança institucional, jurídica e sistêmica. Aprenderão que é um desastre substituir um sistema organizacional pelo “nada”, pelo vazio de racionalidade.

O pior desse tipo de ideologia anticlasse é que se esconde o real interesse de classes sociais (anarcocapitalista), pois, não serão os pobres e a classe trabalhadora a governar. Enfim, como nós, os argentinos aprenderão na carne (que falta nas suas mesas) uma lição essencial: a “razão” criada nas entranhas é provocadora de emoções profundamente antirracionais e podem nos aparentar com tudo e todos/as que não queremos. O ódio social lhes será companhia desagradável por muito tempo, assim como ainda ocorre conosco.

Quando observamos a educação, especialmente em seus aspectos sociais – mais externos e menos técnicos –, sempre nos convém observar para além do campo de visão imediato, para mais além do horizonte dos fatos. Neste sentido, uma abordagem como “A conjuntura mundial e a educação: e os movimentos sociais, como ficam?” traz a chamada para a internacionalização e globalização da análise e dos debates como um a priori.

Além de dados que todos nós conhecemos, como a enorme concentração do capital produtivo e especulativo (Estado Rentista) e do aumento vertiginoso da miséria humana, aliados da exploração destrutiva do planeta, do avanço do Fascismo junto ao Poder Político – a esta altura, já tendo migrado da cultura para o interior do Estado e da sociedade –, coloquemos na conta as duas guerras mais conhecidas: Ucrânia x Rússia e Israel x Gaza. Além dessas, há, pelo menos, mais 15 conflitos importantes, impactantes, para a humanidade – notadamente no esquecido continente africano. Quem sabe dizer, ao menos um desses conflitos? Não sabemos das guerras no continente africano porque, neste dia 20/11/2023, Dia da Consciência Negra, não sabemos o que é racismo.

Todo conflito beligerante tem pontos em comum e o primeiro é a luta por poder, recursos, dominação territorial. Em alguns casos, para além dos “diamantes de sangue”, há um processo intenso de racismo, xenofobia, destruição avassaladora, crimes de guerra, barbarismo de todo tipo. Até que encontremos o extremo no ápice da desumanização, que é o genocídio. Hotel Ruanda, o filme, nos revela um milésimo daquela realidade genocida.

Quando sociopatas assumem ou adquirem o poder (99% das vezes são eles que detém o poder: civil, militar, industrial), o genocídio é uma porta aberta, uma entrada sem saída para milhares, milhões de pessoas. Foi assim logo depois da “Noite dos Cristais”, com o início da caçada nazista aos judeus na Alemanha – até que se espalhasse pela Europa.

Vimos isso, historicamente, com os indígenas nos EUA, vemos isso, infelizmente ainda de forma ameaçadora, com os indígenas latino americanos. Igualmente vemos o povo pobre, negro e oprimido (em alusão a Paulo Freire, Graciliano Ramos, Florestan Fernandes) sofrer desse mesmo morticínio programado, com as chacinas policiais sem represália alguma mediante a justiça do Estado Democrático de Direito. Em vários momentos da política nacional não será absurdo falarmos de algum tipo de “democídio”.

Esta violência, às vezes mais cruenta, por vezes mais seletiva, é uma exposição/explosão desse descontrole social, abusando-se sistematicamente do desprovimento da dignidade humana, do estranhamento e da indiferença que habita e fez hábitos no chão de fábrica, nas casas, nos grupos, nos estratos, nas camadas, nas classes sociais e, ainda mais perniciosamente, nas escolas.

Vimos e vemos jovens se desafiando e se matando por bobagens, quase no sentido impensado e impreciso de quem diz da “violência gratuita”. Não há violência gratuita, nada é de graça, não existe almoço grátis. Toda violência tem uma ou várias origens combinadas.

E quando olhamos o problema do genocídio já iniciado na Faixa de Gaza, sob a relação conturbada entre política, violência e educação, é possível pensarmos em termos de uma “Educação depois de Gaza”.

Em partes a proposta se esclarece. Assim, lembremos dos nazistas promovendo o genocídio dos judeus (um quase-extermínio do povo). Pois bem, a cultura e a sociedade alemã estavam tão impregnadas de fascismo/nazismo que foi preciso a promoção de ações fortes, incisivas, decisivas, no final da guerra, a fim de que um mínimo de racionalidade, sociabilidade, convivialidade, pudesse ser restaurado.

Um texto clássico que ilustra e movimentou esse processo se chama “Educação após Auschwitz”. Adorno foi um intelectual e filósofo alemão dos mais importantes do século XX – um dos pilares da conhecida Escola de Frankfurt. Em Educação após Auschwitz, Adorno defende a necessidade urgente da desnazificação social, cultural, do povo inteiro – mas, especialmente, dos jovens que precisavam entender o que foi a desumanização total do próprio povo alemão – de certo modo, Hannah Arendt denominou isso de “Banalização do Mal”.

Praticamente 80 anos depois teremos, ou, sempre tivemos, que voltar a essa postura. No caso brasileiro, de 2018 a 2022, o Fascismo Nacional[3]  passou balizas sérias e importantes dessa humanização pretendida, da empatia, da capacidade de o povo reagir conforme a inteligência social meridiana. Tanto passou balizas que ainda hoje temos o desafio da humanização das relações sociais, e mais ainda no ambiente escolar.

Os alemães, em reconstrução da Alemanha, e Adorno, atormentado com sua lucidez, tiveram então o desafio da reeducação, para que sequer o mais simples pensamento ou gesto antissemita fosse aceito ou “normalizado”. Em palavras diretas, o mundo precisou e precisa de muito esforço para diagnosticar e afirmar que o fascismo/nazismo não é intrínseco à construção da humanidade.

Pois bem, o antissemitismo foi a bucha de canhão da 2ª Guerra Mundial, bem como já saiu, está posto como reflexo imediato dos atos genocidas, com os requintes na prática de crimes contra a humanidade cometidos pelo Estado de Israel contra o povo palestino. A diferença entre o passado e o presente não está no antissemitismo, em si, afinal, é o mesmo.

A grande diferença está no fato de que o antissemitismo será e está sendo causado pelo próprio Estado de Israel, em suas ações repugnantes contra a Palestina. O chamado sionismo de Estado, que é como está desenhado o Estado de Israel, sempre se põe na defensiva – as guerras na região e a história do povo judeu abonam essa perspectiva –, e, em outros momentos, move-se como faziam seus algozes na Europa nazista. Hoje, o Estado de Israel replica ações e desmesuras semelhantes aos nazistas.

Ou seja, depois de Gaza, precisaremos pensar – a humanidade como um todo – em formas de educação em que não se normalizem nem o sionismo de Estado (vingança estatal) e nem o antissemitismo. Nem autorizando-se o terrorismo do Hamas, nem bonificando-se o bombardeio de hospitais matando civis, doentes, mulheres, bebês.

Nesta Educação depois de Gaza pensamos, por fim, que o Brasil de 2023 é refém de todo esse momento, movimento global de crescimento, afirmação, da desumanização, da aceitação de uma normalização do Mal, realmente, como se acolher e fazer crescer o Mal dentro de nós fosse algo muito normal, natural. Aprendemos com extrema direita, de acordo com a terminologia atual, que para tanto não há limite de idade, nacionalidade, cor da pele, condição social e econômica.

Aquele jovem que atirou e matou outros jovens numa escola pública de São Paulo, além de estigmatizado e sofrendo com bullying constante, era “supostamente seguidor de sites com conteúdo nazista”. Ou seja, a se confirmar pericialmente esses fatos, esse jovem (e tantos outros) não é apenas um paradoxo, mas carrega uma contradição ambulante: ele mesmo.

Enfim, não é difícil percebermos porque o Brasil precisa de muita educação após Auschwitz, bem como de formas atuantes de educação (depois de Gaza), em termos de emancipação (com negativas a qualquer forma de racismo e de xenofobia), inclusão e participação dos jovens na vida social, no mundo da cidadania.

Está subentendido, porém, de forma simples e direta: não é difícil percebermos que os direitos humanos se diluíram, viraram pó, nas articulações que apresentamos. Tanto a realidade de Gaza quanto a argentina – e a nossa – estão submersas pela negação: ainda que a nossa, a partir de 2023, seja uma tarefa a se fazer. Ao contrário de Gaza e da Argentina, a nossa realidade em direitos humanos não apenas se faz, como está sendo feita, e ainda que repleta de contradições em suas próprias negações.

Por fim, o que Gaza tem a apresentar para a Argentina, além da negação dos direitos humanos essenciais – como saúde, educação –, será o efeito suspensivo inerente às situações, condições, regimes de exceção. Não será um Estado de Sítio convencional, como visto em Gaza, mas sim aquele imposto pelas elites e classes dominantes ávidas em manter seus privilégios, especialmente em meio ao caos e desespero crescentes. Um efeito suspensivo que conhecemos muito bem no período entre 2019 e 2022, de suspensão/remoção da mínima racionalidade institucional em troca do amplo “vazio existencial”. Talvez possamos concluir que veremos “novos” capítulos de algum tipo de Esquizofrenia Política – do tipo que um teste simples de exame psicotécnico seria suficiente para diagnosticar.

Conosco, após o Golpe de Estado de 2016 (até 2022), os argentinos aprenderão do que é feita uma verdadeira Licantropia Política[4]; agora nós veremos, com eles, uma forma aguda de Esquizofrenia Política.

Também teremos que inventariar uma Educação depois da Argentina.

 

 

[1] Como sugerimos, precisamente, no encerramento amanhã (21/11/2023) neste curso homônimo oferecido pela UFSCar, e disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=p2AWnCzVKUM.

[2] Do fracasso antecipado, caos projetado, à absoluta inoperância e falência: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce9g774r5q5o. Acesso em 20/11/2023.

[3] MARTINEZ, Vinício Carrilho. Bolsonarismo: alguns aspectos político-jurídicos e psicossociais. Curitiba: Brazil Publishing, 2020.

[4] https://jus.com.br/artigos/81361/bolsonarismo-licantropia-e-virologia-politica. Acesso em 20/11/2023.