BR-319 – O risco de se emprenhar pelo discurso do “ouvir dizer” e fechar os olhos aos Objetivos do Milênio

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Quero falar da ligação rodoviária entre Rondônia e o Amazonas, nossa sofrida BR-319. Na ânsia do asfaltamento, o juízo da superficialidade e da emoção se perde diante da razão, e esta, firme e convicta, não perdoa vacilos.

Nós todos, do Acre, de Mato Grosso, de Rondônia e dos demais quadrantes brasileiros, temos o direito de viajar e nos conhecermos melhor. Nosso mundo amazônico é também fruto do Gênesis.

Esse imenso espaço verde entre as capitais Porto Velho e Manaus merece, de verdade, ser beneficiado por uma rodovia moderna e digna de todos os anseios da população.

No entanto, a exemplo de situações anteriores, isso não deve ser concebido atabalhoadamente, sem regras e na base de uma esfarrapada “lei da colonização a qualquer custo.”

Se a abertura da estrada se deu no período do “Brasil Grande” – um apelido militar –, hoje somos suficientemente grandes para construir as coisas com juízo e sem precipitação.

Lembro-me ainda da célebre frase do presidente Médici, em seu período ditatorial, quando falava “do homem sem terras no Nordeste e o da terra sem homens na Amazônia”

No caso da BR-319 é preciso todo cuidado, paciência e respeito à Natureza. Nela está grande parte de nossa sobrevivência neste Planeta.

Nada de facilitar o abate ou a fuga desesperada de animais, muitíssimo menos de se deixar levar toras de árvores em extinção. Basta! Isso já ocorre noutras regiões de nossa imensa Amazônia, inclusive na fronteira brasileira com o Peru.

Poucos críticos apaixonados conhecem a razoabilidade das estradas-parque. Ignoram que essa proposta vem de longe, a exemplo daquilo que foi projetado há três décadas para o Parque Nacional do Iguaçu.

Agora, o Ministério dos Transportes cria um grupo de trabalho exclusivamente destinado a estudar a melhor maneira de reconstruir a rodovia aberta nos anos 1970, quando diversas balsas faziam a travessia de rios e a viagem era uma epopeia.

Acredito nessa intenção e louvo o gesto do Governo Federal, sensível à reivindicação de políticos, líderes empresariais e de diversos segmentos da população regional. Ao mesmo tempo, endosso, apoio e espero resultados técnicos e definitivos a respeito da pavimentação asfáltica desse caminho.

Realizar de um levantamento sobre a situação atual da BR-319, com foco na identificação de desafios para a otimização rodoviária – eis o desafio possível de clarear o horizonte de todos os graus de sonhadores.

A ligação rodoviária Porto Velho-Manaus não é mais uma utopia, porque se impõe ao longo do tempo. E o tempo é senhor da razão.

Daí que, a análise do GT BR-319 atenderá o conteúdo e as entranhas de estudos técnicos e científicos; projetos e relatórios produzidos por outros grupos que já tenham tratado do tema.

Desnecessário, pois, novas mobilizações classistas, como se descobrissem a pólvora ou a roda.

O risco de se emprenhar pelo discurso do “ouvir dizer” e fechar os olhos aos Objetivos do Milênio existe e nos faz enxergar melhor a obra e suas consequências – boas ou más – se não nos atermos à realidade avassaladora das centenas de saques e do passeio das cargas de madeira roubada.

Por isso mesmo, tudo aquilo que já aconteceu e ainda acontece, nos permite ver a Amazônia e sua riqueza a serviço da Humanidade. Não apenas isso, precisamos ver e respeitá-la, pois já agredimos demais suas reservas hídricas, botânica e mesmo a sua gente distante, sofrida e perdida em seus cantos remotos.

Acompanhar o licenciamento ambiental da BR-319 é mais do que um dever cívico, envolvendo as pessoas de todos os níveis sociais e intelectuais. Não deve limitar-se ao pensamento de qualquer senador de Rondônia, muito menos aos representantes do Estado do Amazonas, em falas apaixonadas e algumas vezes agressivas, como ocorre há meio século.

No momento existe um esforço muito grande do ministro dos transportes, Renan Filho, em editar a portaria do GT BR-319. Ao propor medidas, inclusive normativas, para a melhoria da infraestrutura da importante rodovia, ele atende aos Objetivos do Milênio recomendando a sustentabilidade, a segurança viária e a mitigação de impactos ambientais e de mudanças do clima.

Às vezes me surpreendo com utopias, mas algumas podem se tornar realidade.

O sonho da BR-319 é o sonho de cada um. Felizmente, do debate responsável vem a luz.

Eu creio na solução do problema rodoviário mais importante e interessante da Amazônia Brasileira, da mesma forma que também respeitei, até hoje, diversas mobilizações classistas pedindo simplesmente “a abertura da estrada”. Ou sua “reabertura”, como queiram.

O mundo tem um dono, Deus. E nesse mundo há ordem para contrapor tantas desordens causadas pelo próprio homem.

Temos que seguir no passo correto, evitando transtornos e dor na consciência.

Do jeito que se dizia no ambiente cristão antigo: “Devagar com o andor, porque o santo é de barro.”

Está na ordem do dia o futuro tão presente de novas gerações: daquelas que usarão a estrada e daquelas que moram ao longo e ao largo de seu trajeto.

SEGUE O MANTRA

O cantor Erasmo Carlos costumava dizer isso em seus clipes musicais. Aqui dou sequência à breve análise de minha semana:

  • Destinei R$ 217,9 mil em emendas individuais para equipamentos diversos – computadores, nobreaks, impressoras e autoclaves a escolas de Rondônia.
  • O mundo indígena se desenvolve muito mais do que nos anos 1960 e 1970, mesmo sendo vítima de roubo de madeira nobre. Representantes do Povo Cinta Larga me reivindicaram emenda para uma casa de apoio na cidade de Espigão do Oeste e uma agroindústria para beneficiar produtos da floresta. Admirável!
  • O Cacique José Maria, da Comunidade Indígena Bom Jesus – Rio Sotério, em Guajará-Mirim, está muito feliz com o projeto de energia fotovoltaica em comunidades indígenas e ribeirinhas distantes e de difícil acesso. Todo apoio!
  • Destinei R$ 500 mil a Guajará-Mirim e compartilho a chegada do caminhão para a comunidade de Surpresa. Terra boa, de melancias e de pessoas trabalhadoras.
  • A Comissão de Meio Ambiente, presidida por mim, debateu quinta-feira, 16, a Realidade Urbana do Saneamento Básico no Brasil. Avaliamos a disponibilidade de serviços e da articulação com as políticas sociais, de desenvolvimento urbano e regional, de proteção ambiental e de promoção da saúde. Em dezembro entregaremos o relatório a respeito do assunto.
  • O lançamento do edital para construção da tão sonhada Ponte Binacional Brasil-Bolívia, sobre o Rio Mamoré, aconteceu quarta-feira, 14, no Ministério dos Transportes. Estive lá com o ministro Renan Filho, e o ministro de obras públicas da Bolívia, Edgar Montano. Lideranças políticas municipais, estaduais e federais de Rondônia e da Bolívia, e a direção do DNIT, prestigiaram o evento.
  • Li e lamento que os jovens atletas paralímpicos não viajarão à São Paulo “por falta de voos”, conforme justificativa do Governo do Estado de Rondônia.

CONFÚCIO MOURA

Senador pelo MDB-RO)