TRAGÉDIA ANUNCIADA – II- por Carlos Henrique Ângelo

A enxurrada de lama formada após o rompimento de duas barragens da mineradora Saramarco em Mariana/MG na quinta-feira despertou finalmente a atenção para a situação de risco anunciada aqui, em 2014, pelo consórcio ESBR, de Jirau. Este blogueiro já havia chamado a atenção para o risco de acontecer um verdadeiro tsunami em Porto Velho caso fosse rompida a barragem de Jirau, que levaria consigo sem dúvida alguma a de Santo Antônio e mais da metade de Porto Velho, junto com o que mais estivesse pela frente até o Atlântico. Muita gente protestou à época, me acusando de provocar pânico (houve até tentativa de ridicularizar o blogueiro com um comentário idiota “esclarecendo” que tsunami só acontece no mar). O episódio de Mariana deixou todo o mundo com os cabelos arrepiados. Afinal, se comparado ao Madeira, o rio do peixe não passa de um mero córrego, ou Igarapé, como preferem por aqui.
A Assembleia Legislativa do Amazonas realizou uma audiência pública para discutir os “Impactos ambientais da instalação das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau na calha do Madeira”. A preocupação do deputado Dermilson Chagas (PDT-AM), autor da proposta, é plenamente justificável, segundo o doutor Philip Fearnside, do Impa. Ele esclarece que a falta de uma avaliação séria antes da obra colocou as barragens sob risco de rompimento, pois basearam-se apenas nas cheias anteriormente registradas e foram surpreendidas pela elevação das águas no ano passado. O professor adverte que novas cheias ainda mais graves poderão acontecer com as mudanças climáticas da região.
A lama das barragens mineiras.  avançou pelo leito do rio Doce e chegou ao Espírito Santo na madrugada de hoje (10). A primeira cidade afetada é Baixo Guandu, na divisa com Minas Gerais, de acordo com cálculos do CPRM (Serviço Geológico do Brasil). Por conta da possibilidade de contaminação, o abastecimento de água foi paralisado nas cidades do noroeste capixaba.
Segundo o biólogo André Ruschi, diretor da escola Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz (ES), a onda de lama que desce pelo rio Doce atingirá, no total, uma área de cerca de 10 mil quilômetros quadrados no litoral capixaba – área equivalente a mais de seis vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Será que dá para imaginar o que aconteceria por aqui?
Vejam o que escrevi e o que foi comentado em 18/02/2014
Tragédia anunciada
Autoridades querem saber o real significado da “instabilidade” à qual se refere o Consórcio ESBR
 Não partiram do blogueiro as previsões apocalípticas sobre a instabilidade do coeficiente de segurança da barragem da hidrelétrica de Jirau. Elas foram levantadas pelo próprio consórcio construtor. Não se sabe exatamente se são apenas um blefe para impedir a elevação da cota da barragem de Santo Antônio ou se o risco de ruptura da estrutura da barragem realmente existe. É exatamente o esclarecimento dessa situação que as autoridades rondonienses querem exigir do Consórcio Energia Sustentável do Brasil.
Embora as autoridades procurem evitar previsões alarmistas capazes de disseminar o pânico em meio à população, o pior cenário não é descartado. Não se pode deixar de trabalhar com perspectivas realmente assustadoras. Há sim, bases científicas para os indicativos de catástrofe. A barragem se sustenta em dois fatores: peso e coeficiente de atrito. Se é formado um lago à jusante, ou seja, após a barragem rio abaixo, que é a situação da qual o consórcio ESBR reclama, a própria água reduz o peso da estrutura – princípio de Arquimedes – e a barragem pode sofrer um arrasto com o consequente rompimento.
Mas a formação do lago à jusante significa também uma redução no volume de energia produzida por Jirau, o que pode vir a ser a verdadeira razão da manifestação do consórcio, o que também é possível. É claro que caso isso se confirme o empreendedor terá que ser adequadamente responsabilizado. A situação, afinal, foi criada pelo próprio consórcio ESBR, que forçou para baixo os preços na licitação e mais tarde compensou os prejuízos com a transferência da barragem para o chamado “Caldeirão do Inferno” (chamei equivocadamente de “caldeirão do diabo”, mas o chifrudo é apenas o dono da casa), 13 quilômetros abaixo da localização original, em Jirau. Com isso, a barragem foi instalada exatamente no lago de Santo Antônio, daí a razão da celeuma entre os empreendedores.
É claro que não se pode culpar Santo Antônio ou Jirau pela totalidade dos problemas vividos hoje por Rondônia com as cheia do Madeira. Mas boa parte deles são de responsabilidade dos empreendedores sim senhor. O Ministério Público já havia advertido sobre isso. Os gestores de Santo Antônio vêm a público dizer que a mesma quantidade de água que entra na barragem é a que sai. Mas nada diz sobre o efeito remanso, que bloqueia a saída e represa os rios e canais tributários, levando a inundação para muito além do lago propriamente dito. E mais: se nada de pior acontecer, ou seja, no mais otimista dos cenários, Porto Velho vai amargar um desbarrancamento verdadeiramente catastrófico depois que as águas baixarem.
COMENTÁRIOS
Fui brindado com alguns comentários sobre o texto veiculado ontem. Selecionei alguns, a cujos autores tenho o prazer de procurar esclarecer:
Gustavo Nardino – “Nunca vi tanta asneira junta na minha vida. Os argumentos que você utilizou não tem base lógica e científica alguma. Reveja isto por favor. Apesar de tudo, seu blog é muito bacana, continue assim. Abraços”.
Blogueiro – Permito-me discordar, caro Gustavo. Não sou técnico no assunto, mas jornalista é obrigado a se tornar especialista em assuntos gerais. Quando tenho dúvidas sobre alguma questão, tenho a necessária humildade para me informar com quem sabe. Obrigado pelos considerações elogiosas sobre o Blog do CHA. A propósito: um amigo muito querido dizia que “Asneira” é pé de asno. Use asnice.
Jefferson Cordeiro,  de Santa Cruz do Capiberibe, Permambuco – Será o novo Messias? Profeta do século XXI?
Blogueiro – Não sou nenhuma encarnação de Antônio Conselheiro, caro Jefferson Cordeiro. Mas compreendo sua surpresa, especialmente porque você parece não conhecer o rio Madeira. Imagino que tanta água assim você deve ter visto apenas na Bíblia, na travessia do Jordão.
Hércules Goes – Por mais que as vozes em contrário tentem calar a voz da imprensa ambiental comprometida com a verdade, os verdadeiros jornalistas do clima e do ambiente não ficam calados ante toda e qualquer espécie de barbárie ambiental e denunciando aos tribunais climáticos planetários e o mais significativo que é a Conferencia Parte do Clima Cop 20 da Onu em curso para dezembro de 20l4 e o XIII Seminário Internacional de Sustentabilidade 3l de outubro na capital das cheias.
Blogueiro – Está registrado o recado. Vou cobrar pelo merchan.
Lucas – Amigo: use dados com fontes confiáveis, você não pode sair por ai anunciando uma tragédia sem ser ter um laudo que comprova o que você está falando. Você pode deixar um estado em alerta por causa de uma noticia descabida como essa, um senhor da sua idade já deveria pensar nas consequências de coisas do tipo.
Blogueiro – Não sei qual é a sua idade, caso Lucas, mas se for quem penso você não é tão jovem assim. Ademais, a experiência que adquiri com a idade ensina que a verdade é sempre o melhor produto para trabalhar. Estou ficando mais velho, mas não necessariamente mais burro. As previsões catastrofistas partiram do Consórcio ESBR. Se são verdadeiras ou não é exatamente o que as autoridades estão buscando esclarecer.
Fracisco Américo Hauser –  Caro Jornalista, o assunto “Tragédia Anunciada é da mais alta relevância pois envolve a vida dos cidadãos de Porto Velho e região e significativo volume de bens materiais. Acredito que cabe ao Governo do Estado, amparado pelo CREA/RO e pela OAB/RO mover ações judiciais que não permitam que a tal “Tragédia Anunciada” venha ocorrer. A gravidade desta “Tragédia Anunciada” se sobrepõe aos interesses eleitoreiros do ano político, o Jornalista não deve pensar em um procedimento de jornalismo investigativo mas na sensibilização das autoridades responsáveis pelos cidadãos e seu patrimônio, porque depois da “Tragédia Anunciada” ocorrer “não adiante chorar sobre a água derramada”.
Blogueiro – A providência já foi anunciada, caro professor, pelo Ministério Público de Rondônia em conjunto com o Ministério Público Federal.

 

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