Por Ronald Pinto, de Brasília (DF)

Tenho acompanhado várias leituras da conjuntura política e econômica do Brasil.
Algumas baseadas nas percepções construídas pelas informações da mídia, outras
a partir de pesquisas eleitorais. Resolvi elaborar um texto que tem como base as
percepções do que estou vivendo, não limitado à bolha da esquerda, na periferia e
nas redes sociais.

O primeiro elemento da análise é a percepção de um presidente Bolsonaro
propositalmente ambíguo, e da maneira como ele usa isso para neutralizar as
oposições e reificar o apoio ao seu governo. O governo se apresenta como
vítima e, ao mesmo tempo, como mito. Atuando no papel de vítima, o
presidente busca a compaixão da população e o perdão para seus erros, nunca
citados, mas sempre tratados como decorrentes da sabotagem e da astúcia da
oposição, que, nesses casos, é representada até por agência de notícias
internacionais.

O mito é apresentado como aquele que é capaz de não se curvar
ao discurso do politicamente correto e “mitar”, enfrentando-o com a realidade
nua e crua. O exemplo mais recente dos dois papéis aparentemente antagônicos
é a declaração de estar infectado pelo Covid-19 e, ao mesmo tempo, afirmar que
“todos nós vamos morrer um dia”. Escandalizados com essa informação
frente à pandemia, não percebemos a sagacidade que foi usada. Ele, o mito, é
um ser corajoso, pronto para se sacrificar pela economia do país, e não mentiu
quando disse que não estava infectado, afinal tornou públicos os resultados dos
testes que afirmavam sua contaminação.

Ao mesmo tempo, trabalha a grande
massa sobrevivente frente as vítimas como vencedora, como ele, da pandemia.
Essa conduta do governo prepara o discurso que será usado na pós-pandemia.
Uma narrativa que se baseará em “fizemos o que foi possível”, “tentamos
diminuir a doença”, “a oposição(o PT) tentou quebrar o país”, “a crise econômica
é culpa da oposição que atrapalha as reformas econômicas”, “o desemprego é
culpa da oposição que implantou, com o STF, o isolamento”, etc… Esses
argumentos, que sustentam a narrativa, de forma muito hábil, estão sendo postos
e absorvidos por grande parte da população.

O segundo elemento dessa análise é a divisão do poder econômico entre os que
sustentam a direita e a extrema-direita. O golpe de 2016, que começou a ser
construído já na crise do mensalão, teve como financiadores os grupos que
constituíram o “Vem pra Rua”, “Não vai ter Copa”, MBL, etc… O Vem pra
Rua foi uma construção que tinha como suporte o Leman e se firmou a partir da
percepção de que, se a Copa do Mundo ocorresse sem oposições, o PT se
consolidaria no governo. Para isso era preciso construir a revolta dos milhares
que não conseguiriam entrar nos estádios, seja pelo preço, seja pela lotação. Ao
transformar a rua “na maior arquibancada do Brasil”, conseguiram colocar um
grande desgaste sobre o governo popular. Provocações como “porque investir
em estádios e não em saúde”, “quero escola padrão FIFA”, entre outras, foram
parte significativa da perda de apoio ao PT entre setores de esquerda e de
grande parte do Centro. Isso, obviamente, com o apoio intenso da mídia a
serviço dos setores da direita liberal. Um dos símbolos que foram operados
naquele momento foi a ênfase às ofensas contra a presidenta Dilma, feitas por
Luciano Huck, candidato em construção naquele momento. Habilmente, eles
conseguiram que a esquerda fosse a principal divulgadora do “heroísmo”
antipetista do candidato da direita liberal. Já o “Não vai ter Copa” foi construído a partir da derrota da PEC 300/08, que previa remunerações de policiais civis e militares em todo o Brasil isonômicas às dos policiais civis e militares de Brasília.

A diferença de valor entre as remunerações dessas
categorias no Brasil é realmente abusiva e gera uma revolta legítima.
Articuladas em torno da PEC 300/08, lideranças de policiais de todo o País
tentaram garantir a aprovação de uma lei que garantisse a pretendida isonomia e
usavam, como referência para a solução da impossibilidade dos estados pagarem
tais salários, o exemplo do Piso Salarial Nacional do Magistério, bancado pelo
FUNDEB. Esses debates tiveram duas resultantes importantes na conjuntura. A
primeira, ao analisar que o “governo do PT apoiava os negros, os gays, os
índios e os professores porque eles se mobilizam”, eles tinham que se
mobilizar para conseguir aprovar a PEC 300. Como? “Só conseguiremos atingir nosso objetivo se mostrarmos que sem as polícias é impossível fazer a Copa
do Mundo”. O resultado foram os black-blocs, jogando a insegurança da
população ao extremo e justificando a construção da narrativa da extrema-direita.

O MBL foi uma construção com o apoio dos partidos de oposição ligados à
direita liberal. PSDB, DEM, setores do PMDB, entre outros, patrocinaram o
movimento criado em laboratório para mascarar o MBL, que tinha deflagrado o
processo. O caso do MBL em 2013 e a transformação da luta contra o aumento
das passagens em movimento de massa, após a incapacidade de entender a
dimensão do processo pelo governo Haddad, bem como a violenta repressão do
governo Alckmin, merecem, para nós da esquerda, estudo de um livro inteiro.
Construído na visão anarquista da ação direta e da direção horizontal, o MBL foi
utilizado pelos asseclas da direita liberal e da extrema direita como vetor para o
ponto de virada com o famoso slogan “não são só por 20 centavos!”.

Obviamente, o MBL foi descartado logo após ter sido usado como vetor – por ser
totalmente desnecessário ao projeto da direita liberal. Portanto, enquanto parte
do poder econômico, tem uma agenda mundial e precisa tomar o governo para
garantir a “imagem do Brasil no exterior” e, assim, apoia a liberal democracia.
Outra parte, minoritária, que se apresenta como “nacionalista”, só tem interesses
internos em jogo e apoia a extrema-direita. Na primeira parte se destaca o
empresário Leman; na segunda, o empresário Hang.

O terceiro elemento dessa análise é a mudança da agenda do “Não vai ter Copa.”
Derrotada a PEC 300/08 no Congresso Nacional, por óbices da “área
econômica”, o movimento conclui que só colocando um governo deles para
conquistar esse direito. Qual era a persona política capaz de representar isso?
A resposta cai como uma luva no colo de Bolsonaro. Bolsonaro e as milícias são
intimamente ligados às polícias. Só quem vive no mundo da lua não percebe que
a tentativa de levar cidadania às favelas do RJ, feita pelo projeto da Policia
Pacificadora, dirigido por Beltrame, foi detonada pelas Milícias e pelo
narcotráfico – sujeitos não tão separados entre si, como imagina a população
desinformada. As polícias de todo o Brasil passam a se articular, numa base nacional por Bolsonaro, com amplo apoio da população dos morros e favelas que
colocam a vida, e, portanto, a segurança em primeiro lugar. A isso se junta o
apoio das Igrejas Evangélicas, muitas dirigidas por criminosos “convertidos”,
que são presença autorizada e priorizada nos morros pelas milícias e pelos
narcotraficantes, com o discurso de demonização da esquerda, do PT e do
comunismo.

O quarto elemento dessa análise é o uso das tecnologias hodiernas e seus efeitos
na construção do imaginário da população. O processo de golpe iniciado com a
crise do mensalão usava como instrumento principal a mídia mainstream.
Embora as redes de televisão, os jornais e as revistas semanais batessem
intensamente no governo, não conseguiam passar a barreira da classe média
que tinha acesso a esses conteúdos. Em 2013 se realizou a manobra principal da
efetividade do uso dos novos meios de comunicação/informação na ação política
de massas. As ações de 2013 não visavam um resultado objetivo, mas
verificar qual a eficácia dos novos meios para a transmissão dos conteúdos.

O êxito foi fantástico. Acorreram às ruas milhões de pessoas, de todos os
espectros políticos, para protestar contra “tudo isso que está aí!” mesmo que
fossem coisas contraditórias entre si. Tinha gente contra a mudança da
maioridade penal, gente a favor. Gente contra a Reforma Agrária, gente a favor.
Gente defendendo revolução, gente defendendo a restauração da monarquia.
Havia um ponto em comum: todos contra a rede Globo. Uns porque
acreditavam que a Globo era “comprada pelo PT” e portanto mascarava a
realidade para apoiar o governo. Outros porque viam a Globo bater o tempo todo
no governo, tentando derrubá-lo. Mesmo sendo hostilizada, a Globo tratou de
dar à manobra um ar de protesto e garantir as condições para o Lawfare que
seria utilizado para derrubar o governo petista. A Globo focou e transformou, no
discurso de mídia, as manifestações em atos contra a PEC 37/11, que atribuía
exclusivamente às polícias Federal e Civil a competência para a investigação
criminal, impedindo, assim, investigações por parte do Ministério Público. A
PEC 37/11 foi derrotada por ampla maioria, após a campanha da Globo, em votação no dia 25 de junho de 2013, no calor das manifestações. Com a vitória
da agenda da Globo, ficaram abertas as condições para investigações realizadas
por procuradores (não temos provas, temos convicções) e para todos esses
crimes que agora estão aparecendo nas relações entre a Lava-Jato e o FBI. A
direita liberal, embora conhecesse os recursos das novas tecnologias, não havia,
no entanto, investido na utilização dos dados usados na rede para gerenciar perfis
e direcionar discursos. Tampouco entendia da construção do discurso ambíguo
que neutraliza a resposta do adversário, como tratamos preliminarmente no início
dessa análise. Carlos Bolsonaro entendeu isso e buscou apoio em Bannon, da
Cambridge Analytica. O esforço para impedir uma Nova Ordem Mundial
multipolar e a manutenção dos EUA como a grande força policial planetária
(efetiva na defesa do interesse das grandes corporações transnacionais) foi o
cimento que ligou Bannon, os empresários ligados à extrema-direita mundial e
o “pensador” Olavo de Carvalho no projeto de eleição do Bolsonaro. As redes,
que já haviam sido testadas em 2013, passam a ser usadas com intensidade a
partir de 2016, aproveitando a frustração dos eleitores de Aécio e sua derrota
frente ao PT.

O quinto elemento da análise é o pacto que se fez para a construção do governo
Bolsonaro. A limitação política de Bolsonaro e a necessidade de garantir os
interesses das grandes corporações dentro do novo governo eleito após o
naufrágio absoluto de Alckmin, candidato da direita liberal, levaram à construção
de um pacto que trouxe para o governo Paulo Guedes, Sérgio Moro e as Forças
Armadas. Guedes é o representante dos banqueiros e tem apoio inclusive da
direita liberal, com a tarefa de aproveitar a vitória eleitoral e implantar ações para
consolidação da destruição do Estado na transformação em Estado Mínimo.
Moro, também apoiado pela direita liberal, não deu o golpe para eleger
Bolsonaro. Rendeu-se à realidade com o fracasso de Alckmin. As Forças
Armadas, já presentes no processo eleitoral com Mourão e vários candidatos do
generalato aos cargos políticos pelo PSL, então partido do presidente, em todo o
país, vieram para o governo com o grupo que havia se formado e articulado na MINUSTAH da ONU – que esteve na prática a serviço dos interesses dos EUA.

Não podemos esquecer que a deposição, fantasiada de renúncia, de JeanBertrand Aristide, foi uma das primeiras ações para banir resistências ao projeto
hegemônico dos EUA nas Américas na nova fase do imperialismo contra a Nova
Ordem Mundial Multipolar.

A título de conclusão:

A pandemia de Covid-19, que atingiu todo o mundo, foi o acontecimento que
permitiu mascarar e aprofundar as reformas neoliberais. O que o ministro
do meio ambiente falou na reunião presidencial é, na verdade, o mantra geral de
todo o atual governo: aproveitar a confusão da pandemia para passar a boiada.

Além disso, não há como julgar êxitos ou fracassos no quadro da pandemia e
isso salva o governo de ter que assumir a recessão econômica provocada por
uma política econômica contracionista. Diante do número de vítimas letais do
vírus, o governo contra ataca com o número de curados. Ou seja, coloca a
celebração da vida como sua e a celebração da morte na conta da oposição.
Incapaz de perceber isso, a oposição caminha lentamente para o centro, em busca
de se reconstruir politicamente, atendendo assim aos interesses de parte do poder
econômico que quer impedir a reeleição de Bolsonaro sem, no entanto, abrir mão
da política econômica neoliberal. As eleições municipais serão usadas pelo atual
governo para expandir e consolidar políticas de auxílio em troca de apoio
eleitoral. O que eles acusavam o PT de fazer com o Bolsa Família, farão de
verdade e sem escrúpulos nas eleições municipais. A polarização política será usada contra nós e tentará nos jogar no isolamento. Para isso, desde o PDT
de Ciro até o DEM, todos estarão ocupados no antipetismo.

Salvo melhores juízos, apresento esta análise como uma visão subjetiva e
limitada, mas com intuito de contribuir com tantas outras que estão sendo feitas
nesse momento. Não tratei aqui de outras situações relevantes para entendermos
a atual conjuntura tais como as organizações secretas e suas influências no
aparelho de Estado; o acordo internacional para o ataque ao PT e principalmente
aos seus aliados para gerar a ingovernabilidade que permitiu o golpe; as
investidas sobre as “incoerências” em combater a corrupção e aliar aos corruptos e a questão da Petrobrás no contexto de uma disputa mundial, entre outras.

Pontos de reflexão para o próximo período:

1. Não cair na armadilha da polarização nacional nas eleições municipais.
Buscar organizar as demandas locais e organizar as pessoas que atuam nestas
demandas. As eleições nacionais serão em 2022 e não devemos ir pro processo
eleitoral de 2020 com o Fora Bolsonaro como bandeira principal. Isso nos tornará vítimas imediatas do voto útil;

2. Mostrar no discurso a diferença de interesses entre o pequeno e médio
empresários, principalmente nas pequenas cidades e os grandes empresários e
banqueiros. O exemplo principal disso é a questão salarial: enquanto os grandes
empresários e banqueiros focam no mercado internacional e querem pagar
salários miseráveis para produzirem de forma competitiva frente aos outros
países, os pequenos e médios empresários dependem de bons salários da maioria
da população, para garantir consumidores e com isso alimentarem a economia
local e regional.

3. Abrir o partido para a sociedade. Enquanto o PT parecer estranho à
maioria da população, seremos vistos como “os outros”. Temos que fazer cada
vez mais atividades abertas consultivas e deixar como exclusivas da estrutura
partidária e dos militantes somente as atividades deliberativas. Isso tem que ficar
cada vez mais explícito.

4. Aprender a distinguir entre o repassador de fake news e o produtor de
discursos contra nós de um lado, e os elaboradores. Rebater, sempre que possível
com bom humor, convidando-os para uma conversa sobre o tema. Afinal, se todo
mundo tem interesse em algo, mesmo que pareça agressivo, só o convenceremos trazendo-o para o debate e clareando-o sobre as reais posições que temos.

5. O povo quer mudanças. Foi capaz de eleger um fascista para isso. Até
quando nós deixaremos o povo sem saber que a verdadeira mudança somos
nós?

Abraços do companheiro de lutas

Ronald Pinto

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