Por Vilson de Salles Machado (*)

Desde que cheguei a Porto Velho, tenho presenciado crises intermitentes no sistema de
transporte público. Em alguns períodos há melhoras, em outros piora. No caso das
melhoras, tímidas e limitadas. No caso de piora, completo desmonte do serviço e
abandono dos usuários. Em nenhum momento de melhorias, por exemplo, se enfrentou
uma questão básica que é a disponibilização de ônibus com ar-condicionado já que
moramos em uma cidade quente localizada no meio de uma floresta úmida. E, ao se
considerar que é inconcebível adquirir e andar em um automóvel sem ar condicionado na
cidade, não é razoável aceitar que os ônibus possam prescindir deste recurso.
A prática de tergiversar sobre essa política criou a convicção entre os cidadãos de quê o
transporte público será assim o tempo todo e que é normal que seja assim. Os benefícios
que o transporte público bem estruturado traz, não chegaram às pessoas que moram em
Porto Velho, e estas tiveram que buscar as soluções mais diversas para resolver suas
necessidades de locomoção – e infelizmente o transporte público em ônibus não está
entre as soluções mais usadas. Este tipo de opção de mobilidade, pelo seu histórico,
será sempre para a população, o “patinho feio” dentre os meios que têm à sua disposição
para se locomover pela cidade.
A construção de um sistema eficiente de transporte público nunca foi simples em nenhum
lugar. Mas não há histórico de abandono da tentativa de fazê-lo em alguma cidade, pois
existem vantagens óbvias na sua implementação; para quem utiliza (comodidade e custo
baixo), para a administração municipal (empregos e impostos) e até para quem não o
utiliza, pois o trânsito flui melhor nas ruas com menos automóveis circulando. Além disso,
as pessoas que não têm carro, não utilizam transporte público apenas para ir ao trabalho,
pois necessitam também visitar parentes e amigos, fazer compras, consumir cultura e
lazer. Se lhes for oferecido transporte com eficiência, a sua qualidade de vida se eleva de
patamar.
Os lugares que enfrentaram as maiores dificuldades de melhoria do sistema de transporte
público foram aqueles em que as administrações municipais viram na questão,
oportunidades para ganhar vantagens econômicas e políticas, em defesa de empresas de
grupos de interesse, em geral atreladas ao poder público municipal por longos períodos,
durante os quais prestou serviços de péssima qualidade por razões óbvias e que, nas
mudanças de gestão, resistem em perder as posições privilegiadas nas quais se
encontram desde sempre. Transporte público é política pública e como tal não se presta
às negociatas ou barganhas.
No caso de Porto Velho, a meu ver, o melhor sistema a ser adotado é o integrado, onde
se utiliza ônibus maiores para linhas expressas bairro-centro e micro-ônibus para linhas
interbairros. Este modelo tem inúmeras vantagens para os usuários em relação ao atual,
pois permite mais rapidez no trajeto e flexibilidade de integração com outros modos de
transportes. Para a empresa que for operar o sistema, será mais econômico, pois os
micro-ônibus consomem menos combustível e têm custos de manutenção mais baixo.
Assim, com uma frota diversificada e todos climatizados, será possível oferecer transporte
público de qualidade, no tempo e nas condições suficientes para recuperar a confiança
das pessoas de que ter mobilidade para todos não é privilégio. E, para os gestores
municipais, implementar esta política pública não deve ser secundária na sua agenda
administrativa. O futuro cobrará de todos.

(*) Vilson de Salles Machado, é Coronel da Reserva da Policia Militar do Estado de Rondônia, Bacharel em Direito e Pós-Graduado em Metodologia do Ensino Superior, foi Secretário de Estado Desenvolvimento Ambiental – SEDAM no período de dezembro de 2014 a abril de 2018.

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