A concentração da operação fabril na China criou um modelo inédito no mundo; ao mesmo tempo gargalos como a a fabricação de 95% de EPIs naquele país mostra que estratégia precisará ser repensada
Por Erick Boano – professor de Compras Estratégicas e Inteligência em Compras da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), e fundador da Costdrivers, plataforma digital de gestão de compras

Quase quatro meses depois do início do surto do novo coronavírus na província de Hubei, na China, o país anunciou seu primeiro dia com nenhuma transmissão local registrada – todos os 34 novos casos confirmados em 18 de março foram de pessoas que estavam no exterior.

Se é uma boa notícia em meio às graves crises que a pandemia está gerando no planeta (ainda está fora de controle na Itália e, segundo o Ministério da Saúde brasileiro, sequer chegou à curva de crescimento no nosso país), também é uma primeira possibilidade de enxergar o que será do mundo depois que o vírus estiver controlado – o que se espera que acontecerá a partir de julho.

Para a economia global, dois pontos merecem já ser destacados: o primeiro demonstra como movimentação da maioria das grandes empresas do mundo em direção à China nas últimas décadas – muito por causa dos valores mais baixos de salários e de produção – gerou uma dependência excessiva das plantas industriais e das cadeias de suprimento chinesas.

O “custo China”, em um momento como o atual, mostra qual pode ser seu outro lado: quando as empresas levaram suas linhas de produção para o gigante asiático, atraídas pelos baixos preços de mercadorias e da força de trabalho, construíram um modelo econômico geográfico até então inédito no mundo – os serviços qualificados permaneceram em suas sedes (nas grandes metrópoles dos países desenvolvidos), como a criação de patentes ou os departamentos de marketing, enquanto a fabricação dos produtos foram para milhares de quilômetros de distância.

O mesmo movimento aconteceu com os departamentos de compras: incentivados pelos custos significativamente mais baixos dos fornecedores chineses e de uma melhora contínua nas operações logísticas (fruto de ferramentas tecnológicas, mas também de uma maior integração do país com o restante do mundo), muitos deles passaram a suprir suas organizações quase totalmente com produtos feitos na China – e isso sem reflexões estratégicas nem decisões analíticas, mas apenas baseados nos preços.

Essa é a percepção, por exemplo, do ministro da Economia francês, Bruno Le Maire, que disse que a pandemia escancara ao mundo a “dependência irresponsável e irracional” em relação à China. O presidente do Instituto de Economia Mundial (IfW), o austríaco Gabriel Felbermayr, foi mais longe: declarou que o coronavírus mostra como o sistema de produção mundial é frágil – uma comparação com a “descoberta” do sistema financeiro com a crise de 2008.

Com isso, o setor de Compras agiu como se fosse justamente o que ele não deve ser mais hoje: apenas uma área responsável por reduzir custos. A pandemia de coronavírus, independentemente onde tenha surgido, mostra agora aos profissionais de Strategic Sourcing a importância não só de tomar decisões amparados cada vez mais em análises de dados e com a ajuda de ferramentas tecnológicas, mas também que os custos não devem ser o único critério na tomada de decisão.

É por isso que as consequências econômicas chinesas que virão depois do coronavírus têm potencial de impactar negócios pequenos, médios e grandes em todas as partes do mundo. Na Europa, câmaras de comércio nacionais já apontam que deve haver escassez de produtos em algumas semanas. O motivo? O fato de muitas cadeias de suprimentos estarem inteiras ligadas à China. E esse é o segundo ponto.

Agora, no auge da crise, ainda pouco se sabe sobre como a economia mundial vai estar daqui dois ou três meses. Os mercados financeiros já estão sentindo os efeitos, com flutuações de dois dígitos a cada dia na Bovespa, a bolsa de ações brasileira (caiu 14% em um único dia), especialistas apontando queda significativa nos preços de produtos industriais – muitos deles que têm a China como principal cliente – e os Estados Unidos já admitindo que possivelmente vão terminar o ano em recessão.

O Brasil, da mesma forma, teme o cenário – porque depende do consumo de muitos produtos chineses e porque, no caso das exportações, chega a ter categorias de produtos que só são feitos para preencher a demanda dos compradores da China.

Na gigante asiático, a expectativa é que a taxa de crescimento caía pela metade no primeiro trimestre de 2020, enquanto o investimento privado já registra queda de 26%. Segundo Zhang Yi, economista-chefe de uma grande consultoria de capitais chinesa, o coronavírus vai ser pior economicamente para o país asiático do que a crise financeira de 2008. Para cadeias de fornecedores excessivamente dependentes dos chineses, essa é uma previsão nebulosa.

Isso sem contar que boa parte de grandes empresas mundiais pararam de operar ou reduziram suas atividades em várias partes do mundo, como companhias aéreas, redes do varejo e da indústria alimentícia. Elas ainda não tiveram tempo de calcular seus impactos, mas eles não devem ser pequenos.

Para Compras, o “efeito chicote” do coronavírus será, obviamente, um desafio, mas também uma oportunidade: a se rever tanto o lugar que possuem nas empresas como a forma que operam hoje.

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