São estes os tempos que põem à prova as almas dos homens.”

A célebre frase de Thomas Paine, proferida em plena batalha de independência dos Estados Unidos, há mais de duzentos anos, nunca esteve tão atual e verdadeira.

Nossa geração, ao menos a dos até meio século de vida, não testemunhou uma crise dessa grandeza, que desafia o mundo inteiro.

O Centro de Porto Velho/RO no sábado último estava completamente fechado. Bem mais que em dia de Natal que caiu em pleno domingo. Cenário de terra arrasada. Cenário de guerra – e olha que o míssil, o verdadeiro míssil sequer chegou. Ainda.

O que vai ser de ambulantes, autônomos e comerciantes? Como sobreviverão por dois, três meses (ou mais!!!!) sem o ganha-pão?

Todos eles fazem de dia para comer de noite ou mesmo trabalham de sol a sol, diuturnamente, para pagar as contas no final de cada mês… Conseguem imaginar o desespero de, em meio a tamanha crise, não ter com que saldar os compromissos?

E os pobres, o que acontecerá com eles?

Não se iludam!

Quando algo está difícil para os ricos (classe média para cima, na verdade), aí incluídos todos os funcionários públicos, que, a despeito de tudo, receberão seus salários no final do mês; para os pobres estará muito pior.

E nem precisa ser pobre para estar numa situação, no mínimo, bem desconfortável.

Dizem que o governo aprovou/aprovará medida autorizando a suspensão de contratos de trabalho por até quatro meses; mas, o que será dos trabalhadores no período???? É possível suspender, também, o ato de comer durante a crise?

Na Argentina, que não tinha/tem um terço dos casos e, sobretudo, das mortes do Brasil, já se decretou quarentena total. No vizinho país, as pessoas só podem sair de casa para comprar remédio ou comida.

Nessas terras, já se observa o aumento dos preços de coisas essenciais, como o álcool em gel e as máscaras. Dirão que tem o aspecto econômico pelo meio (maior procura, escassez do produto etc.) – mas, quando o fator humano será levado em conta? Quando o amor será considerado na equação?

A Itália, país mais assolado pelo vírus, até agora (os EUA, famosos por liderar todo quadro de medalhas das Olimpíadas, estão querendo assumir a dianteira que pouco orgulho confere), adotou uma medida controversa. Para dizer o mínimo.

O governo decretou que deixará os mais idosos dentre os idosos (os acima de 80 anos) sem atendimento. Não podendo salvar a todos, já estão escolhendo a quem salvar – caso típico de guerra ou naufrágio.

Fico pensando se essa solução, que é prevista até no direito brasileiro (estado de necessidade – você pode até cometer violência, desde que seja para salvar a sua vida ou a de terceiro), seria a mais condizente, justamente nestas horas, em que a caridade deveria prevalecer.

No entanto, não julguemos para não sermos julgados.

Se essa notícia – a da Itália sacrificar a população mais idosa – não for verdade, o leitor que me perdoe. Apenas disseminei algo que recebi.

Engraçado como o conhecimento nunca esteve tão ao nosso alcance. Atualmente podemos saber (quase) tudo a apenas alguns cliques. No entanto, nunca corremos tanto risco de descobrir que tudo que sabemos pode ser mentira.

Seja como for, ninguém há de duvidar da gravidade do momento.

E, o coração pesa por dizer isso, a situação pode piorar. No fundo, acho que ela vai piorar. E muito! Aliás, em termos de crise, nunca nada está tão ruim que não possa piorar.

Imaginem quando começar a adoecer pessoas próximas de nós? Imaginem quando começar a morrer pessoas conhecidas e, sobretudo, amadas?

Imaginem quando tivermos que pegar senha para ir aos supermercados, como já está acontecendo no sul do país.

O que vai ter de gente com saudade do chefe chato ou do colega da mesa ao lado, que vivia reclamando da vida. O que vai ter de gente com saudade da correria….

O que vai ter de gente contraindo COVID-19 sem nunca ter tido contato com o vírus….

Não se assuste, prezado leitor, porque isso é plenamente possível. Tem gente que até engravida imaginariamente – de crescer a barriga e tudo mais. Nossa mente é muito poderosa. Para o bem e para o mal.

O que vai ter de gente adoecendo, enfermidade, se abusar, até mais grave que a virose mundial, por ver tanta doença, tanta pessoa agonizando e falecendo.

Existem tantas pessoas preocupadas com familiares (o que vai ser dos mais idosos???); famílias isolando-se – parente proibindo até visita de parente, como tem que ser mesmo. O que vai ser de todos nós?

Li num artigo (na verdade, só vi o título) que o pânico é mais grave e perigoso até que o próprio vírus.

E, de acordo com um cartaz de um filme a respeito de assunto similar (epidemia provocada por vírus), nada se espalha como o medo.

O Ministro da Saúde disse que nosso sistema de saúde entrará em colapso em abril.

O que fazer, então, diante do apocalipse que bate às nossas portas?

Bem, além de FICAR EM CASA (A VACINA É FICAR EM CASA!!!!), talvez devêssemos seguir Paulo como nunca fizemos nesses dois mil anos: GUARDEMOS A FÉ!

Ou se preferirem algo mais próximo e menos religioso, sigam a instrução do cartaz de outro filme sobre o mesmo assunto: TENTEM MANTER A CALMA.

Os mais céticos irão dizer que num tal cenário de calamidade é muito complicado manter a fé, a calma e a esperança.

Pois vos digo com toda a força do meu coração: é nos momentos de tempestade que mais a nossa fé tem que aflorar; é nos tempos difíceis que mais precisamos demonstrar nossa crença em Deus; nas épocas tempestuosas que temos que fazer prevalecer nossa humanidade; nas horas mais escuras que têm que sobressaltar os talentos; nas ocasiões de provação e privação que provamos nosso verdadeiro valor e caráter.

Não é a dificuldade da batalha que há de nos deixar esmorecer. Pelo contrário, quanto mais difícil for a guerra, mais temos que nos esmerar; mais temos que dar o nosso melhor – sobretudo em prol dos necessitados. Quanto mais desesperadora for a situação mais temos que manter a paz, a serenidade e, sobretudo, a fé.

Essa tempestade vai exigir muito de governos e sociedades, em todo o planeta. Sobretudo em termos de solidariedade….

No entanto, se refletirmos bem haveremos de constatar que, no fundo, o mundo já estava doente antes mesmo do coronavírus. Talvez, no fundo, o vírus tenha vindo para nos curar.

O vírus veio para (tentar) nos salvar de nosso egoísmo, de nossa falta de amor, de nosso apego excessivo por eletrônicos, do nosso distanciamento, de nossa frieza, de tudo. A doença, que nos afligia e aflige (e continuará a nos afligir, mesmo depois da crise, se Deus não vier em nosso socorro) é muito grave.

Vivíamos/vivemos em um mundo de superficialidades, onde, não raro, a essência é desconhecida ou relegada.

Comentava com a minha valorosa equipe de trabalho dia desses que estamos mais próximos agora, em regime de teletrabalho (Home Office), que antes. O fato é que precisamos nos distanciar para perceber o tanto que ansiamos pela companhia uns dos outros.

Quantas vezes, nos últimos anos, não trocamos a companhia de pessoas queridas, abraços, carícias e mesmo a alegria de uma conversa olho no olho pelos benditos smartphones? E agora? Os smartphones vão suprir nossa necessidade de pessoas queridas ao nosso redor por dois, três meses?

É na saudade que se dá valor… Tivemos que nos distanciar para dar mais valor a estar perto.

Essa tempestade vai passar. Toda tempestade passa. Nenhuma montanha é alta o suficiente.

Urge, então, que aprendamos todos com a crise. Nenhum momento é mais propício para o crescimento que as épocas mais turbulentas.

As crises são, não raro, o maior combustível para o avanço da humanidade. Que o digam as grandes guerras que assolaram o mundo no século passado. Quanto avanço tecnológico, em todos os campos (Medicina, aviação, armamento etc.), experimentamos depois da Segunda Grande Guerra?

Que tal, agora, avançarmos em nossa humanidade? Avancemos naquilo que mais nos informa enquanto seres humanos e que, por mais contraditório que possa parecer, mais está ausente na prateleira de nossos corações: o AMOR.

A doença faz tudo parecer pequeno.

Assim, muito obrigado, Senhor Coronavírus!

Muito obrigado por fornecer ao mundo uma chance de ouro, única mesmo, de se curar da sua doença.

Oxalá, todos nós aproveitemos…

Reginaldo Trindade

Procurador da República

Responsável, no Estado de Rondônia, pela Defesa do Povo Indígena Cinta Larga, de abril de 2004 a dezembro de 2017

Pós-Graduado em Direito Constitucional

Membro da Academia Rondoniense de Letras

Cidadão Abençoado

Ps. Para terminar mesmo essas confusas linhas, transcrevo, literalmente, uma mensagem abençoada que recebi de uma pessoa muito querida – Linda e Jovem. A lição está aí. Segui-la ou não é com cada um de nós….

Quando tudo isto passar….

Desejo que tenhamos aprendido que igreja não é templo.

Que família é o que temos de mais importante.

Que não somos donos do amanhã

E que não temos o controle de nada.

Desejo que tenhamos reaprendido a brincar com os nossos filhos.

A passar mais tempo junto de quem amamos.

A olhar com carinho os mais velhos

E a escola e o hospital como os lugares mais importantes da cidade.

Desejo que tenhamos aprendido que o trabalho não é tudo.

Que viver é recomeçar todos os dias.

Que é preciso coragem para enfrentar problemas.

E que Deus está sempre conosco, não importa o que aconteça.”

Pr. Roberto Amorim de Menezes

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