O vizinho Acre lida com dengue, Covid-19, inundação e crise migratória ao mesmo tempo

Sérgio Vale / Agência de Notícias do Acre

Primeiro, explodiu o número de infectados por dengue. Logo, os casos de Covid-19 voltaram a subir. Nos últimos dias, rios e igarapés transbordaram, desalojando dezenas de famílias em dez cidades, incluindo as duas maiores, Rio Branco e Cruzeiro do Sul. Finalmente, uma inesperada crise humanitária envolvendo centenas de migrantes haitianos na fronteira com o Peru.

Com fila de espera para internação nas UTIs e outros serviços públicos sobrecarregados, o governador do Acre, Gladson Cameli (PP), decretou situação de emergência nesta terça-feira (16) nos municípios afetados pelas cheias e criou um gabinete de crise para acelerar o repasse de recursos federais e tentar coordenar uma resposta aos vários problemas. Uma força-tarefa do Ministério da Saúde chegou ao estado nesta semana para avaliar a situação.

“Estamos com quatro situações bem distintas, que, no final, trazem um dano só, o agravamento da situação da Covid”, afirma o procurador-geral do Estado do Acre, João Paulo Setti Aguiar, ao justificar os dois decretos.

Imagens aéreas dos últimos dias mostram dezenas de quadras alagadas em Cruzeiro do Sul e Tarauacá. Em Rio Branco, o rio Acre, que corta a cidade, não para de subir. Na quarta-feira (17) de manhã, ultrapassou em 1,7 metro a cota de transbordamento, desalojando ao menos 41 pessoas.

Além dos desabrigados pela chuva, cerca de 400 haitianos estão retidos na fronteira do Acre no Peru. Eles tentam deixar o Brasil para migrar para os EUA, mas as fronteiras do país vizinho estão fechadas por causa da Covid-19.

O desafio agora, segundo a Aguiar, é criar uma estratégia de acolhimento com distanciamento social para imigrantes e desabrigados pela chuva, uma necessidade sem precedentes.

Nos hospitais, as equipes médicas lidam com o desafio de tratar pacientes que contraíram dengue e Covid-19 simultaneamente. “A gente vai ter de aprender o que muda”, afirma o médico infectologista Thor Dantas, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac).

“Os desafios são vários, desde o diagnóstico inicial. Em um paciente com síndrome febril, não sabemos se é dengue ou Covid, e os tratamentos são diferentes”, diz. “Se o paciente tiver as duas doenças ao mesmo tempo, não sabemos exatamente como uma afeta a outra, se a dengue pode piorar a Covid, se a Covid piora a dengue.”

Moradora de Rio Branco, a advogada Samayra Lessa, 28, recebeu o diagnóstico da Covid-19 e da dengue no mesmo dia, 15 de dezembro, após sentir febre e dores no corpo. “Eu não queria acreditar, fiquei desesperada, com medo. Uma amiga já estava internada com dengue hemorrágica.”

Para cuidar da dengue, ela se hidratou com até três litros de soro por dia, mas o tratamento para a Covid teve de ser adaptado. “Uma das medicações da Covid [anticoagulante], para não ter risco de trombose, não pode tomar com a dengue”, lembra Lessa, que fez o tratamento em casa. Quase dois meses depois, ela não recuperou o olfato e o paladar e continua sentindo dores de cabeça.

Enfermeiros “Já esperávamos a segunda onda por causa das eleições e das festas de fim de ano, mas ela veio com a dengue, que cresceu mais de 500% em Rio Branco em comparação com o ano passado, com casos que precisam de internação e concomitantes com a Covid”, afirma Yonara Gaio, primeira-secretária do Sindicato dos Enfermeiros do Acre.

Gaio afirma que muitos enfermeiros e técnicos de enfermagem contraíram o novo coronavírus nesta segunda onda, sobrecarregando os profissionais. Por outro lado, ela afirma que a primeira dose da vacina foi disponibilizada para os trabalhadores da linha de frente e, ao contrário da primeira onda, o sindicato não recebeu denúncias de falta de EPIs (equipamentos de proteção individual).

Apesar de não haver confirmação oficial, o médico infectologista Thor Dantas avalia que há poucas dúvidas de que a variante P1, surgida no Amazonas, já esteja circulando no Acre. O estado chegou a receber pacientes do estado vizinho em janeiro, quando ainda havia vagas.

Nesta terça-feira (16), uma fila de carros se formou para a vacinação de idosos com mais de 85 anos em Rio Branco. A imunização era feita por profissionais da saúde usando camisetas com a inscrição “#mimdêqueeutomo” e contava com um violonista se apresentando ao vivo.

Apesar do sistema de saúde estar em colapso, parte do comércio não essencial de Rio Branco permaneceu aberto durante o Carnaval. Do outro lado da avenida onde está o hospital de campanha, dezenas de pessoas aguardavam atendimento médico enquanto um contingente ainda maior se exercitava no parque em frente, muitos sem máscara.

O Acre está sob bandeira vermelha, o que permite a abertura apenas de comércio considerado essencial, incluindo lojas de material de construção e oficinas mecânicas. A reportagem, no entanto, encontrou comércio não essencial aberto no centro e em outras regiões da capital acreana.

“A gente não pode ser radical nem para um lado nem para o outro. Estamos em um estado muito pobre, onde as pessoas dependem de fazer a venda num dia para poder comer à noite”, disse à Folha o prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom (PP), enquanto acompanhava a vacinação. “Eu acredito que a gente está conseguindo equilibrar essa situação.”

Com uma população estimada de quase 900 mil pessoas, o Acre registrou 932 mortos por Covid-19 e 53.590 pessoas infectadas até esta terça-feira. Neste ano, os óbitos em decorrência do novo coronavírus somam 121 pessoas.

Já a dengue no estado em 2021 soma 8.626 casos suspeitos de dengue e 1.552 casos confirmados. O problema está concentrado em Rio Branco, com um aumento de 573,9% em relação ao mesmo período do ano passado.

“As pessoas estão brincando com a situação”, diz a advogada Samayra Lessa, que perdeu um tio e colegas de profissão para a Covid-19. “Vejo muitas pessoas sem máscara, se reunindo. Muita gente pensa que já pegou e tem imunidade.”

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