O homem que enxergava longe redivivo

Apoena Meirelles-1949-2004
Apoena Meirelles-1949-2004

Por Luciana Oliveira (*)

No último 09 de outubro completou 11 anos que o sertanista Apoena Meireles foi assassinado quando sacava dinheiro numa agência do Banco do Brasil em Porto Velho, na boca da noite. Se foi ou não só a hora errada, no lugar errado, uma circunstância favorável ao crime de latrocínio, nunca quedará a dúvida. O indigenista tombou com três tiros e seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro e enterrado no cemitério do Caju. Em cima do caixão, um cocar e as bandeiras da Funai e do Flamengo. 
O enterro atrasou muito, porque índios de várias nações, mas sobretudo os Xavante e os Suruí o homenagearam com o ritual Mapimaí que celebra a formação da etnia Paiter – Nós Mesmos.  
Apoena nasceu numa aldeia Xavante em Pimentel Barbosa (MT) e o nome indígena foi dado pelo pai, outro sertanista de relevo, Francisco Meirelles, que o menino sempre acompanhou no trabalho de aldeia em aldeia.
Apoena nasceu e cresceu com os índios e, naturalmente, foi sepultado com o coro fúnebre dos Paiter, que une nações indígenas.
No documento ‘APOENA MEIRELLES 1949-2004, Uma grande perda frente à lei das mineradoras, em dois momentos do indigenismo’, Mauro Leonel e Betty Mindlin ressaltam: “Coragem física e moral eram sua marca. Como bem lembram os Suruí, ou Gavião, além dos embates no plano político, com frequência Apoena quis estar presente ao lado dos índios no local, arrostando intrusos pela resistência corpo a corpo.”
Um homem que tanto lutou para defender os filhos da floresta do Brasil, deixou herdeiros que esperam há mais de uma década por reparação moral e material. A ação movida pelos herdeiros de Apoena se arrasta num processo que já tem três apelações e que só pra para chegar à decisão em primeira Instância foram sete anos. 
O advogado que assumiu a causa, Ernande Segismundo já provou o direito, mas promete que vai recorrer até o Superior Tribunal de Justiça para garantir a justa reparação no aspecto moral e material aos herdeiros. 
A demora na prestação jurisdicional foi criticada em 1921 por Rui Barbosa na Oração Aos Moços, que assim resumiu: “A justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta.”
Os filhos de Apoena terão que esperar ainda mais como tantos e não pouco, como poucos.
O que ameniza a angústia da espera é ver mais de 500 índios tomarem o Congresso Nacional nesta quarta-feira para protestar contra a Proposta de Emenda Constitucional 215, que altera as regras sobre demarcação de terras. Apoena não só lutou bravamente pela demarcação das terras indígenas, mas também para que se preservasse a vida espiritual e material dos povos da floresta. Mauro e Betty profetizaram no documento escrito após a morte do indigenista: “Apoena Meirelles permanecerá redivivo e intacto, nos cantos e mitos de dezenas de diferentes línguas de índios brasileiros, ali onde os heróis não morrem.”
O nome Apoena para os Xavantes significa: o Homem que enxergava longe.
(*) Luciana Oliveira
Empresária e jornalista
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