acreReportagem do site de notícias do Acre, o  AC24horas,  revelou que documentos vazados de dentro dos departamentos que administram o setor de Segurança Pública do Acre mostram que o Primeiro Comando da Capital (PCC) ainda pode estar atuando fortemente nos presídios acrianos. A reportagem fez ligações das mortes de agentes penitenciários e de policiais militares, e percebeu que os fatos podem ter envolvimento com facções criminosas instaladas no Complexo Penitenciário Dr. Francisco d’Oliveira Conde.

Agora, novos documentos recebidos pelo portal confirmam que existe uma suposta rede criminosa atuando dentro e fora dos presídios do Acre. Segundo os documentos, dinheiro movimentado em contas particulares pode estar financiando as práticas de crimes, dentre eles assassinatos e o tráfico de drogas.

Numa das relações obtidas com exclusividade pela reportagem de AC24horas, ficam legíveis os nomes dos possíveis membros da Facção Criminosa BONDE DOS 13, que, segundo apurado, é financiada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), considerado um dos maiores grupos criminosos do Brasil.

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As relações de pagamentos são, na verdade, as chamadas “rifas”, ou seja: o relatório de distribuição de contribuições financeiras feitas pelos criminosos, ou para manter o tráfico dentro dos presídios do Acre, ou para sustentar as famílias dos presidiários, que estão do lado de fora dos complexos prisionais.

INTERNA 2O material é semelhante ao apreendido no último dia 6 de fevereiro deste ano, durante uma faxina nas celas do Francisco d’Oliveira Conde, localizado no Distrito Industrial, em Rio Branco (AC). Juntamente com os documentos foram encontrados quase 70 celulares, drogas e armas brancas. O fato demonstrou a fragilidade ainda vivida pelo sistema prisional do estado do Acre. No dia seguinte à apreensão, autoridades da Segurança Pública estadual reuniram a imprensa para comentar as apreensões.

Para o secretário da pasta, Emylson Farias, o Estado não vai tolerar qualquer “tipo de crime” e afirmou que haverá respeito aos “direitos dos presos e de seus familiares”.

Por conta da conturbada situação dentro do presídio da capital, naquela semana, haviam sido proibidas todas as visitas em presídios do Estado. O fato gerou revolta e causou um principio de rebelião nas unidades prisionais de todo o Acre. Atos como queima de colchões ou mesmo “bater grade”, foram alguns das práticas realizadas pelos detentos, em repúdio à proibição. Em tempo, o diretor-presidente do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen),  Martin Hessel, explicou como funcionou a faxina e destacou que o trabalho foi feito de forma simultânea em todos as unidades do Estado. Além disso, sobre os celulares apreendidos, o chefe do Iapen afirmou que todos os presos envolvidos no uso dos aparelhos foram identificados e devem ser punidos.

Ao ser indagado sobre como esses celulares entraram no presídio, já que, segundo o órgão, há uma rigorosa fiscalização na entrada do presídio, inclusive com detectores de metais e raquetes, Hessel admitiu a fragilidade do sistema. Está “havendo alguma falha”, assumiu o gestor.

Segundo apurado por ac24horas, o Acre está sendo utilizado pelo Primeiro Comando da Capital, o PCC, como rota para o tráfico de drogas. Os entorpecentes que passam pelo Peru, e entram no território brasileiro pelas fronteiras do Estado, seriam distribuídos por todo o país.

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O fato não é nenhuma novidade e já foi abordado em reportagens de veículos de comunicação do Nordeste brasileiro. Um site de notícias da Paraíba afirma que um estudo sigiloso feito em conjunto pelas gerências de inteligência dos nove Estados do Nordeste revelou os caminhos seguidos pelos narcotraficantes para escoar a droga das fronteiras brasileiras até a Paraíba e os demais estados nordestinos.

Drogas como o crack, a cocaína e pasta à base de cocaína têm como fornecedores traficantes da Bolívia e Colômbia. O material ingressa no país através do Mato Grosso e é deslocada para a Paraíba e estados vizinhos. O Peru, por não possuir condições de refino, fornece a pasta de coca, que entra no Brasil pelo o Acre.

Em teoria, a facção criminosa paulista tem capacidade e recursos suficientes para atuar como intermediária nesse processo, segundo o procurador do Ministério Público do Estado de São Paulo, Márcio Christino, especialista em investigações sobre o PCC. O jurista é autor do livro Por dentro do Crime: Corrupção, Tráfico e PCC (Ed. Escrituras).

“Para se manter o PCC tem quer importar grandes quantidades de cocaína. Eles já têm uma logística para trazer (a cocaína da Bolívia) e distribuí-la (no Brasil). Por causa disso não teriam dificuldade para embarcá-la ou revendê-la para outras organizações”, disse em entrevista à BBC Brasil.

De acordo com o procurador, comprar do PCC seria uma vantagem para outras organizações criminosas interessadas em operar rotas de entorpecentes que passam pelo Brasil. Isso porque assim elas evitariam os riscos de retirar a droga da Bolívia e cruzar a fronteira brasileira. Contudo, segundo Christino, o PCC é uma organização “tipicamente nacional”, que poder até vender drogas para máfias ou grupos estrangeiros, mas não tem capacidade para distribuir o entorpecente em outros países.

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“Ele pode atuar como um intermediário, mas não vai tentar entrar em mercados já ocupados (por outras organizações criminosas)”, argumentou.

Se levada em consideração as afirmações do procurador de Justiça do Estado paulista, e agrupar as informações aos fatos repassados ao ac24horas, ficam praticamente certos os motivos de o PCC atuar dentro do Estado do Acre. Seria, então, supostamente mais fácil, ingressar com a droga pela fronteira do Acre e, consequentemente, haveria mais recursos financeiros produzidos pelo crime do lado de fora dos presídios, o viabilizaria o sustento dos familiares de presos nas ruas das cidades do Acre.

Os documentos repassados ao portal, são semelhantes aos apreendidos também pela polícia do Distrito Federal, no entorno de Brasília. Segundo a assessoria da Polícia Federal (PF), os integrantes também eram obrigados a comprar rifas, com bilhetes no valor de R$ 30 – fato que se comprova nas imagens apresentadas nesta reportagem; os eram depositados em contas bancárias.

Segundo investigação, ao todo, cada membro pagava cerca de R$ 700 por mês para a cúpula da quadrilha. O dinheiro era levantado por meio de crimes como roubo e tráfico de drogas. A investigação apontou, ainda, que a mensalidade era chamada de “cebola”.

OPERAÇAO DIÁSPORA
Trinta e nove mandados de busca, apreensão e de prisão foram executados em fevereiro de 2013 para desarticular a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Acre. Em três meses de investigação, utilizando como base 2.160 horas de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, o serviço de inteligência da Polícia Civil identificou todo o esquema de trabalho do grupo criminoso.

No Acre, o líder do PCC, Tiago da Silva Gomes (conhecido como Mestre dos Magos ou Paciência) mantinha contato com outros criminosos, presos em penitenciárias localizadas no interior de São Paulo e no Mato Grosso.  As ordens e orientações eram emitidas pelos demais detentos a partir dos presídios. Dos 39 presos durante a operação, apenas cinco estavam livres. Os demais ou já cumpriam pena ou foram presos recentemente.

O Ministério da Justiça chegou a autorizar, na época, a transferência dos seis presos considerados, pela polícia, os mais perigosos do grupo. Além disso, seis contas bancárias utilizadas pelo grupo para transações criminosas foram bloqueadas pela Justiça e foram alvos de investigação. Durante as prisões efetuadas, foi apreendido também um livro que registrava toda a movimentação contábil do PCC no Acre. “Para os integrantes do PCC, ser preso, às vezes, é até um prêmio porque significa uma progressão dentro da própria organização criminosa”, explicou o então secretário de Estado de Polícia Civil, Emylson Farias.

OMISSÃO PÚBLICA
Durante o preparo desta reportagem, ac24horas buscou realizar entrevista com o diretor-presidente do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen). Martin Hassel não foi encontrado para falar sobre o assunto, nem para receber as cópias da documentação obtida exclusivamente pelo portal.

Em contato com a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SESP), foi negada ao ac24horas agendamento de entrevista individual com o chefe do sistema penal do Acre. Segundo a Gerência de Comunicação daquele órgão, somente uma Nota de Esclarecimento satisfaria os interesses do site.

Durante comunicação telefônica com a SESP, a reportagem foi questionada sobre os assuntos e temática que seriam abordadas durante entrevista com o chefe do Iapen. Prefirimos não antecipar as sugestões de perguntas.

Além disso, a Gerência de Comunicação do órgão questionou por diversas vezes o que os documentos obtidos pelo ac24horas apresentavam realmente. Mesmo assim, no dia seguinte, pela manhã de sexta-feira, 20, data em que esta reportagem foi concluída, tentou-se novamente contato com o órgão, mas a ligação não foi atendida e não houve retorno por parte da assessoria do órgão.

 Fonte: AC 24 Horas

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