Morre, aos 90 anos, padre Paolino Baldassari: um legado de amor e santidade

O Acre perdeu um dos maiores líderes religiosos: padre Paolino Baldassari, da paróquia de Sena Madureira (Foto: Arquivo Secom)
O Acre perdeu um dos maiores líderes religiosos: padre Paolino Baldassari, da paróquia de Sena Madureira (Foto: Arquivo Secom)

O Acre perdeu na tarde nesta sexta-feira, 8, um de seus maiores símbolos religiosos: o padre Paolino Baldassari, da Ordem dos Servos de Maria, da paróquia de Sena Madureira. Aos 90 anos de idade, o líder deixa um legado de amor, humildade e santidade, além de um vasto histórico pautado na supremacia das santas missões populares.

Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco (Huerb).

Italiano de nascença, acreano de coração, sena-madureirense por escolha, padre Paolino Baldassari estendeu sua liderança para além das fronteiras espirituais e defendeu em vida, e com muita garra, a floresta amazônica.

Amigo sempre presente, o governador Tião Viana costumava chamá-lo de “um santo vivo”, em nome de seus feitos e de uma vida inteira dedicada, sobretudo, aos mais humildes e desamparados.

“Padre Paolino há quase 70 anos chegou ao Brasil, escapando da Segunda Guerra e deu todo amor aos humildes, índios e seringueiros, sendo visto por muitos, mais do que como um amigo, um santo. O único bem material que adquiriu foi a batina e, aos 90 anos, só essa ele tinha”, destacou o governador.

Conhecido como o médico da floresta, durante anos dedicou-se a atender inúmeras pessoas que se enfileiravam para consultar-se com o religioso, que na verdade não era médico, mas denominava-se um prático da medicina. Ele aprendeu no cotidiano, por meio de livros, contatos com seringueiros, índios, e com a comunidade em que vive, diversas receitas de cura.

Padre Paolino em suas desobrigas: subindo os rios para fazer batismos, casamentos, confissões e pregar a palavra de Deus (Foto: J. Diaz)
Padre Paolino em suas desobrigas: subia os rios para fazer batismos, casamentos, confissões e pregar a Palavra de Deus (Foto: J. Diaz)

Humildade, simplicidade e missões

2013_Dezembro_secom_acre_5970_3Sua humildade e simplicidade e a defesa de ações éticas e dos valores de família e integridade fizeram do padre Paolino uma pessoa amada e respeitada por todos.

E seu rebanho não se limitava à zona urbana de Sena Madureira. Vez por outra ele pegava o batelão (espécie de barco utilizado na Amazônia) e subia os rios da região, parando em cada comunidade, em cada casa, onde fazia as famosas “desobrigas”.

As desobrigas eram viagens missionárias em que o padre levava o Evangelho às populações isoladas na floresta. No início, quando boa parte do povo de Sena Madureira morava na zona rural, as desobrigas chegavam a durar seis meses. As últimas tiveram duração aproximada de 60 dias. E mesmo com a saúde frágil e os quase 90 anos de vida, ele não cogitava suspender a atividade.

(Foto: Sérgio Vale/Secom)
o governador Tião Viana costumava chamá-lo de “um santo vivo” (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Santidade, amor e compaixão

Padre Paolino é uma referencia de homem cristão, um exemplo a ser seguido por todos, por sua compaixão e dedicação aos pobres, além das causas sociais e ambientais.

É inegável o legado do frei no Acre, principalmente com o povo de Sena Madureira, lugar que ele escolheu para morar e dedicar a vida. Foi quase um século de um ministério marcado pela humildade e pelo ato de servir ao próximo.

Padre Paolino: um santo de casa

Padre Paulino (3)
(Foto: J. Diaz)

Ele acordava às 4h30 para orar. Entre 6 e 7 horas, rezava missa na Igreja, e das 7 ao meio-dia atendia 80 pessoas que o procuravam como médico da floresta (é autor do livrinho “Medicina da Floresta – Fonte de Vida”, já na segunda edição, com receitas para o tratamento de mais de 150 doenças utilizando ervas e folhas). Após o almoço, costumava descansar até as 14 horas, depois saia em visita às famílias egressas dos seringais que enfrentam vida difícil na cidade; à noite, mantinha um programa de rádio com mensagens religiosas e sociais.

Este era o cotidiano do padre Paolino Baldassari, 90 anos, membro da Ordem dos Servos de Maria, que faleceu nesta sexta, 8 de abril, no Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco, onde se encontrava internado há vários dias.

Padre Paolino era responsável há 46 anos pela Paróquia de Sena Madureira, no Acre. Nascido na Itália, era filho de um pedreiro com uma agricultora. Ainda jovem tornou-se ajudante de pedreiro e não gostava de estudar. Era tão ruim em matemática, segundo ele mesmo afirmava, que, certa vez, numa única aula levou 70 tabefes do professor por não responder corretamente a tabuada. Após a guerra, tendo migrado para o Brasil, passou a ser aluno aplicado, formando-se em Teologia e aprendendo vários idiomas.

Ainda na Itália fez amizade com outro religioso, o frei Heitor Turrini, que virou seu principal parceiro na prática religiosa. Vieram juntos para o Brasil num avião da Alitália, por iniciativa de Turrini, que conseguiu passagens de graça. A proeza se repetiu na viagem para a Amazônia e custou a Heitor dois dias de carona num caminhão até o Rio de Janeiro, para pedir as passagens ao dono da empresa Cruzeiro do Sul (depois Varig). A aventura deles em terras acreanas compõe uma história comum apenas na vida dos santos da Igreja.

No Acre há mais de 50 anos, padre Paolino penetrou fundo nos seringais, tornando-se aliado preferencial das famílias seringueiras, na alegria e na dor. Construiu mais de 40 escolas na floresta, em locais onde o poder público tinha dificuldades de chegar, e encampou a luta dos seringueiros contra o desmatamento e pela permanência em suas colocações.  Sofreu 82 malárias, por isso dedicou-se a conhecer os medicamentos conhecidos por índios e seringueiros a partir de plantas da floresta.

https://www.youtube.com/watch?v=gVuB1GY0nrM

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