Mariana pode estar sendo seduzida pelo canto da sereia de uma candidatura prematura ao governo.

José Armando BUENO (*)

O CANTO  |  A mitologia existe para preencher nossos vazios sem resposta. Criamos mitos para ter âncoras existenciais, emocionais, espirituais. Por vezes adotamos mitos para responder aos nossos anseios e desejos, dos mais puros aos mais sórdidos. As sereias inserem-se nesse contexto. Para alertar os homens para os perigos do mar, criou-se o mito do canto da sereia, uma espécie de feitiço que  levaria marinheiros a perder a razão ou a consciência, seduzidos por sereias encantadoras. Nesse diapasão, o canto da sereia representa a criação de situações de encanto, de sedução, de atração para anseios e desejos que necessitamos satisfazer. Neste momento nossa querida, linda e perfumada deputada federal Mariana Carvalho, pode estar sendo a sereia de si mesma, seduzindo-se pelo próprio canto de uma prematura e eventual candidatura ao governo do estado. Também pode estar sendo atraída pelo canto vindo de grupos de interesse, o que torna esse canto mais letal.

A PERPLEXIDADE  |  O que torna esse canto letal vindo desses grupos é o desconhecimento do território, ou do conhecimento sectário e das idiossincrasias do contexto político e eleitoral de Rondônia. Mariana é uma deputada federal com notável capital político construído por seu perfil único, de mulher na política rondoniense com atributos que, certamente, vão além da sua beleza estética e sua enorme simpatia. Conseguiu formar grupos de seguidores muito fiéis, quase evangelizadores, que depositam nela a personificação da mulher guerreira, vitoriosa, moderna e atuante,  numa total repaginação da trajetória cansada da deputada Marinha Raupp, consolidada na mesmice e na política clientelista, especialidade do MDB. A perplexidade reside neste cenário aonde a nascente trajetória da jovem deputada, está sendo amputada ou desviada para um rumo prematuro demais para lastro político de menos. Mariana é dominante em Porto Velho e menos que coadjuvante em imensos territórios políticos no interior.

O EX-IMPERADOR  |  Não construiu ou solidificou suas bases nessas glebas e rincões — alguns grandes colégios eleitorais — por absoluto impedimento do ex-imperador Expedito Júnior, que caminha velozmente para a aposentadoria política por excesso de autoritarismo, egoísmo e incapacidade para mudar. O domínio do ex-imperador sobre as bases peessedebistas no interior ainda é grande, e a maior parte já migrou para o seu outro partido, o nanico PSD. Depois das eleições poderá ser extinto em Rondônia, dado o seu raquitismo nas urnas. E Mariana não terá tempo de construir um tecido político com capacidade eleitoral para 2018 nem que acelere composições, agora tarde demais para serem feitas. O PSDB, prioritariamente, precisa dedetizar e desratizar sua direção, carcomida pela velha política enxertada em seu sangue pelo ex-imperador. Não é renovação, é reforma mesmo. O partido precisa ter a mão e a marca da deputada e do chefe maior do clã, o nobre Aparício Carvalho. Uma nova estratégia precisa ser construída para esta reforma, inclusive de forma independente à Nacional, fragmentada pelo caciquismo que impera nos grupos que não se entendem.

A COMPLEXIDADE  | O cenário político e eleitoral em Rondônia deu uma guinada para o abismo de guerras fratricidas entre partidos e poderosos, e os olhos grandes e insaciáveis dos interesses bilionários sobre orçamentos, contratos e territórios políticos. Não houve ainda um esfarelamento ou derretimento sem volta, o que existe é um tecido necrosado, purulento e podre disputado por vermes – com raríssimas exceções – e que ainda se mantém sob uma casquinha fina que não dura três meses. No outubro negro que se aproxima, vai ocorrer uma grande diarreia para a expulsão de grande parte dessa podridão. Isso tudo torna o ambiente complexo demais, e a deputada Mariana não deveria colocar em risco uma reeleição garantida para aventurar-se nessa fossa séptica e numa disputa que será realizada sobre fezes. Na campanha eleitoral as redes sociais serão transformadas em canos de esgoto com penetração capilar na sociedade. Será um teatro de horrores e maus odores. E certamente haverá um novo arranjo de forças, com os filtros que serão impostos pelo voto.

A REALIDADE  |  Mariana Carvalho tem pela frente pelo menos 40 anos de longevidade política, o que não é pouco sob qualquer olhar. Antecipar ou apressar a construção de um projeto de longo prazo, é a pior escolha, pois os alicerces políticos na atualidade têm a natureza do vento. Não se dominam ventos, adaptam-se as velas e isto exige mais que paciência, competência, habilidades de navegação nos mares revoltosas da política e o refinamento da argúcia, da sagacidade e da resiliência. Mariana vem adquirindo experiência e maturidade para o domínio desses requisitos sobre o tabuleiro político, aonde jogadores mais experientes utilizam não apenas seus peões, torres, cavalos e bispos mas, mais especialmente, constroem Cavalos de Troia dentro de territórios inimigos. Tenho comigo que a sabedoria do chefe do clã, o mestre Aparício Carvalho, saberá orientar sua tutorada e seu irmão, prestes a adentrar em novo tabuleiro cedo demais. Afinal, transferência de voto é tão irreal quanto uma aliança entre Bolsonaro e Lula. Portanto, Mariana, o canto da sereia, mais que um mito, é uma armadilha mental para egos inflados e personalidades imberbes. Proteja-se bela!

José Armando Bueno é empreendedor e jornalista, editor de A CAPITAL.

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