Instituto Chico Mendes sofre mais ataques em Guajará-Mirim

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MANAUS, AM (FOLHAPRESS) – O ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) sofreu dois ataques atribuídos a madeireiros em Guajará-Mirim (RO), a 330 km de Porto Velho. O saldo é de um carro parcialmente avariado e uma moto furtada.

Os incidentes ocorreram durante operações de combate à extração ilegal de madeira na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Ouro Preto. Os criminosos roubam principalmente itaúba, madeira de alto valor devido a sua resistência.

O primeiro caso ocorreu na madrugada do dia 30 de setembro. Um Ford Fiesta do ICMBio teve parte dos vidros quebrados. Além disso, foi colocada uma ripa de madeira sobre o veículo, interpretada pelos agentes ambientais como um recado sobre o motivo do ataque.

Duas semanas depois, no último dia 14, uma moto Yamaha Lander 250 foi furtada. Mais tarde, um funcionário do ICMBio recebeu o recado de que o veículo havia sido furtado para cobrir parte do prejuízo com as apreensões.

O órgão ambiental registrou boletim de ocorrência em ambos os casos.

Com o caso de Guajará-Mirim, são três ataques a órgãos ambientais nas últimas semanas. No sábado (20), três viaturas do Ibama foram incendiadas em Buritis (RO). No dia anterior, uma equipe do ICMBio foi cercada por moradores de Bela Vista do Caracol (PA), às margens da BR-163.

A animosidade contra o ICMBio e o Ibama é antiga na Amazônia, mas agentes de ambos os órgãos veem um recrudescimento nas últimas semanas, em meio a reiteradas críticas do candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Foi a primeira vez neste ano que o Ibama teve viaturas incendiadas. Em julho do ano passado, um ataque queimou oito caminhonetes no sudoeste do Pará. Os veículos estavam sendo transportados em um caminhão-cegonheira.

Para o presidenciável, o Ibama e o ICMBio promovem uma “indústria de multas” e que seus agentes fazem um “ambientalismo xiita”. Em visita a Rondônia durante a campanha, ele também disse que o estado tem um excesso de unidades de conservação e terras indígenas.

“Aqui em Rondônia são 53 unidades de conservação e 25 terras indígenas. É um absurdo o que se faz no Brasil, usando o nome ambiental”, disse Bolsonaro, em agosto.

O capitão da reserva recebeu votação acima da média nacional (46%) nas regiões dos ataques ocorridos. No Trairão (PA), o candidato do PSL obteve 51,9% dos votos válidos. Em Buritis (RO), o percentual chegou a 69,9%.

Sob a condição do anonimato, um servidor do ICMBio em Guajará-Mirim afirmou que ataques desse tipo eram inéditos na região.

“Parece que está acontecendo uma revolta. Sempre fiscalizamos, sempre prendemos pessoas, mas ninguém nunca destruiu nossa viatura ou nos ameaçou”, disse. “Hoje, a gente tem a preocupação até de estar saindo na rua. Não podemos mais sair em carro oficial, com medo de eles serem detonados. O clima está muito pesado.”

Após ataque da sexta (19), o PM do Pará suspendeu o apoio a operações do ICMBio ao longo da BR-163, alegando falta de segurança e a proximidade com o segundo turno.

No incidente, moradores de Bela Vista do Caracol queimaram uma ponte para impedir a volta de uma equipe do ICMBio que fazia uma operação contra desmatamento e extração ilegal de madeira e palmito na Floresta Nacional (Flona) Itaituba 2.

Reunidos a algumas centenas de metros, os moradores chegaram a disparar para o alto. A equipe do ICMBio teve de improvisar uma ponte e saiu da área escoltada pela PM. Ninguém foi preso.

Em nota, o Comando Geral da PM afirmou que a medida tem como objetivo evitar “possíveis novos distúrbios” e defendeu a realização de uma reunião, na próxima semana, entre o ICMBio e moradores da região para “amenizar o clima de tensão”.

Procurado, o ICMBio informou que não iria se pronunciar sobre a decisão da PM.

Cálculo do Observatório do Clima com base nos dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostra que o desmatamento na Amazônia aumentou 36% entre junho e setembro, período da pré-campanha e campanha eleitoral, em comparação com o mesmo período do ano passado.

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