Histórias e estórias do Cemitério no Mocambo

Luciana OliveiraMeu pai morou até os dezoito anos em frente o Cemitério dos Inocentes e ao lado do necrotério do Hospital São João José, por isso tantas histórias e estórias cabulosas povoam meu imaginário.
Do Campo Santo com valiosa plantação de pés juntos soube ainda criança que lá tem muita manga boa de chupar e muitos casos e causos pra contar. Das estórias não apareceu vivente pra reclamar e, também, não se tem notícia de alguém que adoeceu por comer as suculentas mangas comuns e manguitas adubadas com defuntos.
Por pouco, no entanto, o primeiro a usar o necrotério do cemitério não foi um português que comandou um grupo de insurgentes contra a cobrança de taxas pra bancar sua construção.
Uma professora do município que tentava sensibilizar a população para a importância do necrotério no local foi duramente destratada por um dos portugueses que já consideravam um absurdo recolher taxas pra EFMM. O delegado em retaliação à ofensiva contra a professora prendeu o ‘baderneiro’ e mandou dar-lhe uma surra com umbigo de boi na delegacia.
Foi o estopim para que o grupo armado com rifles, revólveres e armas subtraídas do almoxarifado da EFMM invadisse a delegacia pra libertar os detidos. O delegado fez o que podia sem ter como se defender, fugiu em disparada. O delegado, cujo sobrenome era Guerra, fugiu do local e ninguém conseguiu encontra-lo. Guerra, fugiu da guerra.
O fato foi narrado pelo escritor Antônio Cantanhede no livro Achegas Para a História de Porto Velho, que registrou a revolta ocorrida no dia da bandeira do ano de 1915.
Por um século de história e por abrigar os mortos de pioneiros ilustres e de famílias tradicionais da cidade, o Cemitério dos Inocentes é um museu a céu aberto, onde jazigos como o da família Resky e do escritor Vespasiano Ramos são verdadeiros pontos turísticos no dia de finados.
Todo ano cumpro o ritual de visitação por mera tradição, mas busco o boca a boca como fonte pra me embrenhar nas estórias mórbidas ou engraçadas que rondam o cemitério.
Uma de minhas preferidas é a do Cabo Lira que quando tomava umas e outras se danava a fazer serenatas e volta e meia visitava o túmulo do Vespasiano para brindar com o ilustre poeta.
Contam os antigos que havia um coveiro de nome João, um tipo físico assustador de pele amarela, que gostava tanto do cemitério que às vezes dormia por lá. Numa noite qualquer, com o ritual de sempre, Cabo Lira servia os copos e dizia repetidamente: “Esse é meu, esse é pra você”.
O coveiro que descansava sob uma lápide fria atrás da capela gritou: “bota aí um pra mim!” O cabo ao ver aquele vivo com cara de morto aos berros em cima de um túmulo, bêbado, não economizou na carreira.
Como ele, outros bêbados se aventuraram em noites quentes no cemitério, uns inocentes. Em outra ocasião, dois encontraram um pequeno grupo de amigos que bebiam nas redondezas. Ao pedir uma dose, o grupo os desafiou a trazer uma vela do cruzeiro como condição.
Os dois foram, mas no caminho, um cambaleando caiu numa cova recém-aberta e lá ficou esperando o amigo pra ser resgatado. Agora, imagina a cena: um bêbado com uma vela acesa, dentro de um cemitério, de noite, passa por uma cova e vê um homem gritando: “me tira daqui!”
Muita coisa contada é engraçada, mas se tem uma história que me deixa com o cabelo em pé se repetiu justamente no necrotério que gerou tanta confusão.
Nos fundos da capela, sob uma pedra que ainda está por lá, era extraído um pedaço do fígado dos recém-chegados pra contabilizar os casos de morte por malária. Não raras vezes, o próprio coveiro fazia o procedimento.
Minha vó Raimunda Cândida escapou minutos antes do sepultamento.
“Ela morreu no parto! Não tem necessidade de saber se foi malária”, disse um amigo da família que impediu a retirada do tecido.
Verdade ou mentira, assim o povo do bairro conta.
O cemitério fica no Mocambo, bairro que se formou praticamente junto com Porto Velho e abrigou muitos trabalhadores comuns da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Isso talvez explique a escolha do nome que reflete o preconceito que sempre marcou o nascimento das cidades. Mocambo era como chamavam os refúgios de escravos que destoavam do cenário urbano por suas habitações precárias. Nasceu, portanto, com cara e fama de favela, mas também de reduto da boemia e fonte valiosa de cultura popular.
“Eu era órfão, pobre e era feliz, porque não era só. No meu Mocambo tudo era alegria e o mundo parecia ter mais luz”, recorda o poeta Antônio Cândido, meu pai, testemunha de muita contação de história e estória.
Ele diz que o bairro nunca foi reduto só de ‘peles curtas’, mas de gente honesta e trabalhadora, embora admita com pesar a nefasta carga do preconceito que suportavam os moradores. “Lembro do Areal surgindo, crescendo e invadindo o meu Mocambo e os seus moradores cortando caminho pelas vielas do meu bairro, vaidosos por morarem num bairro planejado, com ruas retas e topografia feita pelo seu Miranda. Tanto fizeram e tão grande foi a resistência, que apesar de espremido por todos os lados, o Mocambo só não conseguiu vencer o preconceito claramente explicitado nos jornais”, lamenta o poeta, antigo morador.

Ele não se dá conta, mas fui atraída para esse reduto cultural onde todos os anos brinco meu carnaval, na praça São José, no bloco Até Que A Noite Vire o Dia, sem preconceito de nada.

Luciana Oliveira
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