Davino e Cícero Noronha
Davino e Cícero Noronha

Enfim temos prefeito. No último domingo, 2, a população de Guajará-Mirim elegeu para o cargo máximo do executivo municipal, em eleição suplementar, o empresário Cícero Noronha Alves Filho (DEM), e também, para o cargo de vice prefeito, o vereador  Davino Serrath (PMN).

A eleição de Noronha e Davino despertou em algumas pessoas o que há de mais animalesco e insano no ser humano: o ódio, o preconceito, a fúria, e o desprezo ao próximo, sentimentos tão em vogo no Brasil pré e pós golpe, quase aceitos como atitudes naturais nas relações socais.

Proclamados os vencedores, algumas pessoas, sob forte ataque de fúria, recorreram às redes sociais para atingir de forma violeta, desprezível e preconceituosa a dupla vencedora, com ilações criminosas e vis. Tal atitude desumana nos leva a uma reflexão: o quê representa a eleição de Cícero Noronha e Davino Serrath para contexto político local, considerando as nuances classe dominante e subalterna, patrão e empregado, centro e periferia, casa grande e senzala?

Eleger para o cargo de prefeito alguém que não descende dos clãs de pioneiros e fundadores da urbe mamorense, um principiante em cargo público, sujeito que em sua infância vendia tapioca, picolé e outros quitutes caseiros, para engrossar a renda família; eleger um prefeito sem ‘linhagem política’, que ainda tem como vice um afrodescendente, de origem social semelhante à trajetória do prefeito eleito, para alguns representantes da elite política e econômica segregadora perolense chega a soar como afronta inenarrável; humilhante desonra para o Palácio Pérola do Mamoré; imensurável vergonha para cidade e aos grupos políticos outrora dominantes.

Impropérios como “incompetente, traficante, gay, aliciador de menores, seqüestrador de menores” invadiram as redes sociais após proclamação dos vencedores do pleito suplementar. A eleição de Noronha e Serrath deixou, por exemplo, Linara Cavalcante “inojada de Guajará” (sic). Luan Cézar, filho do vereador e Presidente da Câmara de Vereadores de Guajará-Mirim Mário Cézar (PMDB), declarou em redes sociais: “Agora 2 incompetentes assumido a prefeitura, um traficante e outro gay” (sic).

Certamente que os advogados do Prefeito eleito Cícero Noronha Alves Filho e do vice Prefeito, o vereador Davino Serrath, tomarão as medidas necessárias, à luz da lei, para combater os possíveis crimes cometidos por Linara Cavalcante e Luan Cézar.

Nesta segunda-feira, 3, Noronha e Serrat fizeram visitas em algumas unidades e áreas da prefeitura. Em uma delas, enquanto o prefeito eleito e seu vice circulavam pela área externa de um órgão visitado, duas funcionárias que observavam do interior da repartição as autoridades eleitas, comentaram: “o prefeito nem olha pra gente”. Então a outra respondeu: “é que ele esta lá embaixo e não está vendo a gente aqui em cima”. As duas funcionárias foram interrompidas por uma terceira servidora comissionada, que asseverou: “e é lá embaixo o lugar dele. Ele nuca vai passar disso”.

Para quem faz política com “P” másculo e para homens grandes, agora é hora de juntar cacos, lamber feridas do embate, sacudir a poeira e seguir em frente. Noronha e Davino tem missão mais relevante: transformar a prefeitura em uma instituição mais justa e o município em uma cidade mais agradável, mais humana e mais tolerante. Fazer da injustiça e do preconceito sofridos por ambos, instrumento de reflexão e de transformação. Converter a dor em política pública de reparação e justiça social para todas as vítimas de preconceito, racismo, misoginia, xenofobia, homofobia e tantas outras formas de segregação social.

A melhor resposta de Noronha e Davino à desagradável experiência viva é levar o tema para espera da política pública, de forma a inspirar discussões e possível criação de uma coordenadoria municipal da cidadania e direitos humanos, a exemplo de inúmeros municípios, diretamente ligada ao gabinete do prefeito, conduzida por Davino Serrath, para articular a implementação de políticas públicas de defesa, reparação social, promoção e garantia dos direitos fundamentais de negro, mulheres, idosos, crianças, adolescentes, índios, população LGBT, portadores de necessidades especiais, quilombolas, estrangeiros (em especialmente população boliviana residente no município), e demais segmentos sociais historicamente marginalizados e desassistidos pela carência – ou total ausência – de políticas públicas municipais reparadoras no âmbito da educação, assistência social, saúde, cultura, esporte e lazer, com vistas à superação das desigualdades e a eliminação das diferentes formas de discriminação.

Ariel Argobe

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