Governo mobiliza toda a Esplanada para rebater críticas de indígenas

Secretaria de Comunicação pediu a todos os ministérios que divulguem em suas redes sociais respostas do governo à mobilização de indígenas

A preocupação com os povos indígenas se tornou a principal inquietação do governo federal – pelo menos, nas redes sociais.

Pressionada pela repercussão no Brasil e no mundo devido a denúncias de abandono e de genocídio feitas por lideranças dos povos originários, a gestão Bolsonaro instruiu as equipes de comunicação de todos os ministérios que ajudem a rebater as críticas e divulguem as ações do governo em relação aos indígenas, o que tem sido feito pela maioria dos órgãos nos últimos dois dias.

A fonte das postagens que têm sido divulgadas pela Esplanada toda é a Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República, que disparou dezenas de notas desde o fim da semana passada acusando de mentirosas as denúncias que têm sido feitas por indígenas que foram à Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas (COP26), na Escócia, em reportagens e em um filme que estreou na Netflix.

No sábado, dia 13 de novembro, a Secom orientou que as equipes de comunicação dos ministérios entrassem no esforço para combater as críticas. “Iremos realizar ação conjunta e urgente neste final de semana para divulgarmos políticas públicas realizadas pelos ministérios, como forma de evidenciar o árduo trabalho do Governo Federal e levar a realidade de fatos à sociedade brasileira”, diz o texto que foi disparado pelo órgão responsável pela comunicação oficial.

“Uma ação de comunicação digital está sendo elaborada pela Secom. Solicitamos que as equipes de redes sociais de cada ministério estejam preparadas para apoiar esta ação em seus perfis ao longo do sábado e domingo. Os materiais serão compartilhados logo mais pela nossa equipe de Articulação”, diz ainda o comunicado ao qual o Metrópoles teve acesso.

A instrução foi seguida pela maioria dos órgãos entre o domingo e a segunda (15/11). Postagens defendendo as ações do governo em relação aos indígenas foram replicadas em contas de Twitter, Instagram e Facebook de pastas que têm pouco a ver diretamente com o assunto, como os ministérios do Trabalho; Turismo; Infraestrutura; Ciência e Tecnologia; Desenvolvimento Regional; Agricultura; Casa Civil e Secretaria de Governo. Pastas com mais afinidade com o tema, como Saúde; Educação; Cidadania e Direitos Humanos (Mulher e Família) também aderiram.

O Ministério do Meio Ambiente foi um dos poucos a não atender o pedido da Secom, juntando-se às pastas da Economia; de Minas e Energia e à Advocacia-Geral da União (AGU).

COP26

O protagonismo que a delegação de indígenas brasileiros conquistou na COP26, repercutindo em Glasgow e na mídia mundial denúncias sobre riscos novos e antigos que sofrem essas etnias, irritou o governo federal.

Após discursar na abertura do evento e dizer que os animais estão desaparecendo, os rios, morrendo, e seus parentes sendo vítimas de crescente violência, Txai Suruí, liderança de 24 anos do povo Paiter Suruí, de Rondônia, tornou-se alvo do próprio presidente Jair Bolsonaro e foi intimidada por um membro da comitiva do governo na Escócia.

A preocupação governamental escalou com a estreia na Netflix do filme A Última Floresta, dirigido por Luiz Bolognesi e com roteiro do líder ianomâmi Davi Kopenawa, que denuncia os graves problemas causados pela invasão de milhares de garimpeiros à reserva ianomâmi em Roraima. A obra está cotada para concorrer ao Oscar de Melhor Documentário e rende críticas positivas pelo mundo.

A “cereja do bolo” no incômodo governamental foi uma longa e detalhada reportagem exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, no último domingo (14/11), denunciando a crítica situação de crianças ianomâmis que convivem com malária e desnutrição crônica.

As respostas

As postagens do governo federal tentam responder a todas essas críticas e divulgam as ações de órgãos públicos no atendimento aos indígenas brasileiros, principalmente os ianomâmis, que são cerca de 30 mil e convivem com um número estimado de 20 mil garimpeiros ilegais em suas terras.

Nenhuma das postagens responde, porém, o porquê de o governo não ter cumprido ordem do STF de maio deste ano para “retirada urgente” dos invasores garimpeiros. Nem o motivo pelo qual o Ministério da Saúde enviou para a reserva milhares de comprimidos de cloroquina para tratar a Covid-19, sendo que o remédio não tem eficácia contra a doença e sim contra a malária, mas para essa doença estão faltando suprimentos.

Metrópoles procurou a Secom para perguntar sobre essa estratégia de comunicação, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto.

Metrópoles

Facebook Comments