ENCHENTE DO MADEIRA: TRISTEZA PARA UNS, LUCRO PARA OUTROS

sh1

Shell é um dos inúmeros pilotos de voadeira que está levando os novos turistas de Porto Velho para ver a desolação em que se transformou os bairros do Triângulo, Cai N’Água e Baixa da União. Morador da região há 40 anos, até consegue ficar estarrecido com tamanha tristeza. Diariamente são muitas viagens. “Parece que todo mundo resolveu conhecer a beira do rio”, lamenta.

As ruas asfaltadas ou não dos bairros deixaram de existir, agora o que se vê é uma imensidão de água. Comércios, igrejas, residências, nada escapou da fúria das águas do Madeira. Os moradores estão abrigados em casa de parentes e ou em abrigos públicos.

she2Sebastião Soares de Melo tem 94 anos, dos quais os últimos 40 vividos no Cai N’Água, a dor de deixar a casa, expulso pela força da água, o levou a um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Resultado: cinco dias de internação e na saída do hospital, a esperança de retornar para casa. Informado da impossibilidade, o jeito foi se conformar e aceitar passivamente ficar com a filha.

Um passeio de voadeira custa em média de R$ 5,00 por pessoa. “Tá vindo gente de todo lugar, mas a maioria é de Porto Velho mesmo”, contou Shell, que nunca imaginou ver o seu bairro como agora. Segundo ele, só não se tornou uma das vítimas porque já morava em um flutuante. “Senão eu ia ter de procurar um abrigo como os demais”.  Na sua jornada tem visto muito coisa, mas tem observado que algumas pessoas ficam consternadas com tanta destruição, mas muita gente fica indiferente. “O pior vem depois quando a água começar a baixar, vai ter muita cobra e bicho peçonhento dentro das casas”, já prevê.

she3
A força da água está provocando o rompimento de portas e janelas de casas e comércios. Quem pôde, retirou tudo que tinha, mas em algumas casas, ainda se vê animais que estão sendo resgatados pela Defesa Civil quando esta toma conhecimento. No último sábado (01) a Agência Nacional de Águas (ANA) anunciou que o rio Madeira atingira os 18,73.

ESTRADA DE FERRO

she4Na Estrada de Ferro Madeira Mamoré para salvar o patrimônio do museu, todo o acervo foi transferido para a sede da Superintendência de Turismo, no antigo prédio da administração da Madeira Mamoré.  A água avançou ultrapassando os trilhos. O atrativo da cheia está movimentando o comércio local, especialmente de alimentos. No sábado havia até veículo com placa do Peru no local.

Devido à gravidade, o governador Confúcio Moura decretou situação de emergência desde o dia 13 do mês passado. São pelo menos quatro municípios na mesma condição:  Porto Velho, Guajará-Mirim, Nova Mamoré e Rolim de Moura. O ministro da Integração Nacional, Francisco Teixeira, esteve duas vezes na capital, a última delas acompanhado pelo secretário nacional da Defesa Civil, general Adriano Pereira, que destacou que Porto Velho enfrenta uma cheia atípica e que a prioridade deve ser a preservação de vidas, seguida pela recuperação dos prejuízos. Por orientação do governador, equipes técnicas nas principais secretarias e estatais já estão trabalhando no levantamento de prejuízos econômicos e financeiros para o Estado.

Texto: Alice Thomaz
Fotos: Marcos Freire

Facebook Comments