Mais uma etapa do projeto Doutores Sem Fronteiras foi encerrada. Durante um mês, médicos e dentistas de São Paulo percorreram comunidades ribeirinhas e indígenas em Rondônia oferecendo consultas, exames e até próteses dentárias.

Entre os pacientes, o cacique Pedro Arara foi um dos que mais se destacou. Depois de um dia de tratamento, ele pôde sorrir. O cacique chegou nas mãos dos profissionais sem oito dentes da frente. Ao 70 anos, só tinha ido uma vez ao dentista. O scanner mapeou as falhas na arcada dentária e uma prótese foi construída na hora.

“Tantos anos que estava sem dente, sem comer as coisas direito. Foi muito bom esse trabalho feito com a gente”, agradece Pedro.

O Doutores Sem Fronteiras vem atendendo comunidade indígenas e ribeirinhas de Rondônia desde 2014. Mas na aldeia Ikolen, onde vive o povo Gavião e o povo Arara, é a primeira vez.

O que chamou a atenção dos profissionais na aldeia Arara foi a quantidade de extrações de dentes em crianças. A cada 10 atendidas, sete precisaram fazer a extração, em média três dentes cada um.

O Jobson foi uma dessas crianças. Aos 9 anos, foi examinado pela primeira vez por um dentista. Como ele só fala a língua da tribo, o pai, Antônio Gavião, precisou ir explicando a criança o passo a passo da dentista. Dois dentes tiveram que ser arrancados.

Antônio diz que não quer o filho seja como ele, que não teve acesso a tratamentos dentários. “O dente estragou e por isso que ele está tirando o dente. É a primeira vez que a dentista vem na aldeia”, comenta.

Outro tratamento muito utilizado nas comunidades ribeirinhas e indígenas foi o de canal, que pode ser feito em uma única sessão graças a equipamentos portáteis de raio-x e tecnologia verde, que permite a revelação sem uso de produto químico.

A equipe chegou a fazer mais de 30 canais em um único dia. “Para ter uma ideia, em um curso de especialização, o aluno faz em média 50 dentes durante os dois anos da especialização. A gente fez mais de 30 dentes em um dia”, explica o dentista Felipe Machado.

Este ano, o projeto levou uma médica clínica geral que fez exames como eletrocardiograma, além de exames básicos de sangue de colesterol, glicemia, sorologia de doenças sexualmente transmissíveis, malária, entre outros. A médica Rebeca Carbinatto estreou este ano no projeto e ficou encantada.

“A gente vem aqui e vê o tanto que a gente tem na nossa cidade, o tanto que eles não têm e mesmo assim tem muita gratidão da parte deles. A gente aprende muito como ser humano, como pessoa”, diz Rebeca.

A ginecologista também é novidade no Doutores Sem Fronteiras. Para conseguir fazer a consulta, a médica Patrícia Alarcão precisa da ajuda da Agente de Saúde Indígena. Uma das pacientes tem nove filhos, a maioria nasceu em casa e ela não lembra de ter feito exames como o preventivo. Patrícia diz que essa é a situação de quase todas na tribo.

“Nós tentamos ajudar de todas as formas. Algumas pacientes não fizeram exames básicos como o que a gente tem nas cidades, como uma ultrassom, que é uma coisa simples de trazer, e não tem nem noção disso. Então rastreamento de câncer e essas coisas as vezes acaba que a gente nem consegue fazer”, lamenta.

Ao todo, 90 profissionais de São Paulo deixaram a família e o trabalho pelo projeto. O responsável pelo Doutores Sem Fronteiras, Caio Machado, diz que em um mês na região foram mais de 5 mil procedimentos. Ele garante que está levando para casa bem mais do que trouxe.

“A gente aprende a ser humano de verdade. Levar dignidade e levar o poder de escolha para essas pessoas, de ter o mínimo de dignidade”, comenta.

Fonte: G1

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