Ditadura, houve ou não houve?

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Líder sindical Aluízio Palhano Pedreira Ferreira


Quem viu o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) votar pelo impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, homenageando o major Carlos Alberto Ustra, ou não entendeu, ou sentiu náusea, ou sentiu ódio.

O momento histórico no qual depuseram uma presidente democraticamente eleita, por atrasar os pagamentos dos programas sociais, será contado nos séculos vindouros. Ou talvez não, porque os professores podem ser censurados em período próximo. Mesmo assim resumo aqui o fato. As denominadas pedaladas fiscais, que são corriqueiras em governos estaduais, federais e até em prefeituras serviram como base de fundo para o ex-deputado federal Eduardo Cunha pedir abertura de processo de impeachment da presidenta da República. Se houve interesse pessoal ou não, o fato é que Cunha está preso desde 2016 e carrega um pedido do MPF de pena de 386 anos.

Mas, dentre os que conhecem pelo menos parte da história do Brasil, há um sentimento de repúdio à violência militar do período do golpe por eles impetrado. A náusea foi sentida por estes. Mas há um grupo que sentiu ódio aflorar. São parentes de vítimas do período da repressão durante a ditadura no Brasil. Mesmo depois de décadas nos quais familiares tentam perdoar o mal que foi feito aos seus entes, como num clique o deputado pode os fazer sentir o amargo sentimento do assassinato ora cometido pelo Estado. Estado este, sustentado por nós. Sustentamos muitos militares. Militares estes que assassinaram covardemente. Covardes que estão impunes. Impunes porque o Estado tem medo.

Eles estão escondidos atrás da mesa com os ânus na mão, contando o tempo no qual seu soldo é um prêmio pelo sangue, corrupção e ócio. Debaixo de uma bandeira de patriotismo apostam na falta de informação do que se passou e na ignorância dos que não viveram ou não pesquisaram. E cada vez tem sido mais aclamados, com suas fardas impecáveis, movimentos repetidos e bem treinados que tentam se impor pela força e pelas armas.

Mas há quem diga que o período de 1964 até a redemocratização do país não passou de fake news. O produto de uma educação pífia, resultado de um investimento mesquinho no setor trás este tipo de comentário à tona. Ainda há quem diga que quem assassinou mesmo foram os próprios movimentos de esquerda. Os comunistas. Os vermelhos. Os subversivos. Que Estado é esse, que se você criticar morre? Há relatos que sindicalistas, líderes de movimentos, ou mesmo não apoiadores do golpe fugiam para o interior do Brasil. Os milicos então os seguiam e torturavam até as famílias que os abrigavam. Alguns pouco sabiam sobre a repressão e se viam de repente no Pau de Arara, Cadeira do Dragão, etc…. Até crianças foram submetidas a estas violações.

Para quem não acredita nos livros de história por achar que estão escrito em letras vermelhas, segue uma informação anunciada nesta segunda-feira (3). Foi identificado o corpo do bancário, advogado e líder sindical Aluízio Palhano Pedreira Ferreira. Ele estava desaparecido desde 1971 e participava do movimento Vanguarda Popular Revolucionária. O sindicalista, posto na ilegalidade em 1964 constava na primeira lista de cassados pelo Ato Institucional-1, do então governo militar. Cassado, seu último contato com a família foi em abril de 1971.

Ele não era assassino. Não era terrorista. Iniciou sua carreira no Banco do Brasil e foi por duas vezes presidente do Sindicato dos Bancários. Lutou pela liberdade democrática, a extensão do voto dos analfabetos e dos soldados e pelas reformas de base, características do governo do ex-presidente João Goulart . Documentos apontam que foi preso em 9 de maio de 1971 cerca de 5 meses após seu retorno clandestino ao Brasil. Há relatos de que foi barbaramente torturado do dia 15 de maio até o dia 20 daquele mês. O preso político Altino Rodrigues Dantas Jr. enviou, no dia 1º de agosto de 1978, carta ao general Rodrigo Octávio Jordão Ramos, então ministro do Superior Tribunal Militar (STM), na qual relatava que tinha estado preso com Palhano no DOI-CODI. Em seu relato, Altino afirma que, na noite do dia 20 para o dia 21 daquele mês, por volta das 23 horas, ouviu Aluízio ser retirado de sua cela e levado para sessão de tortura. Altino pôde ouvir os gritos do torturado até por volta das 3 horas da manhã, quando se fez silêncio. Depois não houve mais qualquer informação sobre Aluízio, até o dia 3/12/2018

Foi preciso encaminhar um osso do fêmur para um laboratório especializado na Holanda, que comparou o DNA com o da filha de Palhano. Sua ossada estava em uma vala comum, que foi descoberta em 1990 no cemitério Dom Bosco, no bairro Perus em São Paulo. Nesta vala foram lançados, talvez milhares de militantes políticos.

Então, antes de desdizer sobre os fatos, Pesquisemos sobre os mortos. Será que essa polarização onde tudo é comunista, desde os que defendem as regras de proteção ao clima, quanto Mais Médicos? Agora, até as mulheres que não querem ser assediadas entraram para esse sistema político. O período foi negro, houve mortes e há muito escondido pelos pés de bota. Houve ditadura sim e foi sangrenta.

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