DIREITA E ESQUERDA BRASILEIRA, A DIALÉTICA PEDE PASSAGEM À HISTÓRIA

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Por Elizeu Lira (*)

Para escrever este artigo, na busca da isenção possível a um ser político como eu, tomo o
significado da palavra “dialética” usado no titulo, do filosofo alemão Hegel, embora também
pudesse utilizar o “materialismo histórico” ou o “materialismo dialético” de Marx e Engels,
sem que isso se desviasse do objeto a ser tratado ao longo deste texto.

Para Hegel, a dialética é a lei “que determina e estabelece a auto-manifestação da ideia
absoluta.” Para Hegel, a dialética “é responsável pelo movimento em que uma ideia sai de si própria (tese) para ser uma outra coisa (antítese) e depois regressa à sua identidade, se
tornando mais concreta.” Além disso, o filosofo alemão afirma que a dialética “não é apenas um método, mas consiste no sistema filosófico em si, porque não é possível separar o método do objeto, porque o método é o objeto em movimento.” Como é sabido no meio
acadêmico, a dialética hegeliana é importante no estudo da filosofia existencial e da teologia evangélica. Fiz esse preâmbulo para fundamentar as teses que defendo neste artigo, de caráter geral sobre o panorama político atual no País. Tentarei ser o mais sucinto que puder, sobre tema tão espinhoso.

A abertura política consolidada em 1985, conduzida por José Sarney, encerrou um ciclo
dialético de direita, iniciado em 1.964 com o golpe militar. Após o golpe, militantes de
esquerda foram perseguidos, mortos, exilados e torturados. Com a anistia em 1,986, todos
puderam voltar para casa e recomeçar a vida no seu país, inclusive a militância política.

Não foi por acaso que muitos exilados se elegeram constituintes, nesse mesmo ano. A
Assembleia Nacional Constituinte foi instalada no ano seguinte. Com a finalização dos
trabalhos e a entrega da Carta Magna, em 1.988, o Brasil inicia um ciclo em que os ideais
mais progressistas pautam a agenda do País. Para isso, a Constituição promulgada enfatiza
os valores da liberdade, da justiça, dos direitos, da inclusão e da participação popular. Foi
na esteira desses valores que o primeiro presidente eleito pelo voto popular é cassado, após sucessivos casos de corrupção.

Nesse período, um partido de esquerda chegou ao poder, se reelegeu, elegeu e reelegeu
seu sucessor. Nele, também ocorreu a autoafirmação de grupos minoritários diversos, desde aqueles vinculados às lutas históricas por direitos (moradia, acesso aos serviços públicos, reforma agrária), passando pelos segmentos de identidade (negros, mulheres,
homossexuais, quilombolas), até a consolidação da organização de um segmento da
sociedade civil adormecido pelo torpor social imposto pelo regime militar. A interrupção do
quarto mandato do Partido dos Trabalhadores pelo impeachment, no entanto, estabelece
uma série de questionamentos sobre os valores e conquistas desse período para a
sociedade brasileira. Antes, em 2013, foram emitidos sinais aos protagonistas da Republica
de quê alguma coisa deveria mudar.

Para isso, contribuíram os vários casos de corrupção envolvendo políticos de diversos
matizes ideológicos, integrantes dos mais variados partidos políticos, inclusive do Partido
dos Trabalhadores, no governo por 14 anos.

Não por acaso, após o impeachment a ascensão de um governo de centro – não quero aqui
entrar no mérito se legitimo ou não – abriu a possibilidade de aprofundar o viés dos
extremos – como de fato ocorreu. A parte da população que se achou usurpada pelo
impeachment reagiu, aprofundando suas demandas e distanciando-se dos espaços de
diálogos e do entendimento. Com a condenação do líder maior do Partido dos
Trabalhadores, essa situação é levada ao extremo.

A chegada do período eleitoral encontra o País numa convulsão política nunca vista. A
fragilidade histórica da política de segurança alcança o seu ápice com o fortalecimento dos grupos do crime organizado, do aumento dos números de femenicídios, do crescente índice
de homicídios e a proliferação de todo tipo de drogas – além da derrocada de experiências
bem sucedidas, como é o caso da UPP´s no Rio de Janeiro. A isso, som-se a explosão da
corrupção em todos os níveis de governo. É nesse universo de negação que a direita
ressurge, com todos os elementos que caracterizam a direita brasileira. Aqui, à guisa de conclusão, retomo a dialética hegeliana, apresentada no início deste artigo.

A história é feita de ciclos, de “teses” e “antítese”, como defende o mestre alemão. Os ciclos que constituem a história estão sempre em movimento e são os próprios objetos em
transformação. As teses defendidas pela esquerda brasileira, no apogeu do seu ciclo, são
confrontadas pelas suas antíteses, nesse momento histórico e serão objetos da
transformação produzida pela dialética. Isso é um processo inexorável, histórico, produzido
pelos homens e suas escolhas. O que vale considerar, entretanto, são os métodos que a
direita (a brasileira, em especial) e a esquerda utilizam para desconstruir suas antíteses.

(*) Elizeu Lira é sociólogo, 55 anos, especialista em políticas públicas.

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