Weitãg Suruí, de idade próxima dos 100 anos, não chegou a ser testada para o novo coronavírus em vida

Sobrevivente do genocídio contra o povo paiter-suruí, a anciã Weitãg Suruí morreu no último sábado (2), com sintomas de Covid-19. De idade próxima dos 100 anos, ela viu sua etnia quase ser dizimada por uma sucessão de doenças trazidas pelo contato com o
branco, a partir de 1969, mas ajudou na manutenção do conhecimento
tradicional. Weitãg morava na aldeia Apoena Meireles, dentro da Terra Indígena (TI) Sete
de Setembro, entre Mato Grosso e Rondônia, e não chegou a ser testada
para o novo coronavírus em vida. O povo paiter-suruí vem enfrentando a segunda onda da Covid-19.

“O contato sempre foi um desafio pro nosso povo. A geração da minha mãe
nos orientou a chegar até aqui para que a gente pudesse compreender a
diferença da cultura e sobreviver dentro dessas diferenças”, diz Almir Suruí,
46, importante liderança indígena do país.

A história do contato dos paiter-suruís com os brancos está ligada à
construção da BR-364, durante a ditadura militar, entre Cuiabá (MT) e Porto
Velho (RO), nos anos 1970. Com a obra, colonos e madeireiros invadiram o
território paiter-suruí, em um processo caótico que matou centenas de
indígenas, vítimas principalmente do sarampo.

Casada com Marimop, importante liderança, Weitãg perdeu ao menos um tio
e um irmão para as doenças do branco, conta Almir. Em meio ao choque com
a invasão, além de apoiar o companheiro, coube a ela a transmissão oral do conhecimento da medicina tradicional da confecção de peças de artesanato aos filhos, 63 netos e 55 bisnetos.

Nora de Weitãg, a indigenista Ivaneide Cardozo diz que tinha dificuldades
para engravidar até fazer um tratamento feito com ela. “Dois meses depois,
estava grávida”. Ela tem duas filhas adolescentes da união com Almir.
“Para nós, a minha avó é uma pessoa de conhecimento. Não somente na área
de ervas tradicionais, ela também nos aconselhava. Foi uma pessoa
sensacional”, afirma o neto Rubens Suruí, 31.

Weitãg fazia parte de um reduzido grupo que nascera antes do contato. Eles
somam cerca de 50 pessoas, em uma população de cerca de 1.500 paiter suruís. São facilmente reconhecíveis pela pintura permanente no rosto,
linhas harmoniosas desenhadas com espinho e tinta de jenipapo para
marcar a passagem para a vida adulta.

Fonte: Folha de S. Paulo

 

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