Crônica da precisão de conversar

É isto mesmo que quero escrever, como que seguindo o rumo de um ócio não encontrado, como os velhos aposentados das cidades pequenas, que primeiro atende ao que lhe é pedido fazer pela mulher, sobre coisas faltantes na cozinha.

Depois de feito, dar uma volta na rua, porque sempre na rua se encontra alguém na mesma situação,  que sai de casa sem saber para onde ir e nem tem definido o que fazer. Termina na praça,  onde já tem gente, como ele, jogando dominó. Enquanto outros, com chapéu igual, quebrado na ponta, acomodado no seu jeito pessoal.

O outro também igual, e ficam por ali a falar das coisas da vida, as passadas, do futuro apenas a aposentadoria, que deve cair na conta no dia certo. O meu dia de cair o dinheiro é o dia 6 de cada mês. Até hoje não engulo ter uma aposentadoria tão baixa. Acho que faltou papel, o governo exige muito papel. A gente não guarda papel. Nunca se pensa que um dia ficará velho.

Só me preocupo com o ano que  vem, que terei que fazer a prova de vida, que o governo exige, daí a pouco terei morrido. O dinheiro ficará para minha mulher? Será que os filhos com mais de trinta anos têm algum direito? O dinheiro só dá mesmo para chegar ao dia dez do mês. Pago as contas passadas e remonta as novas em cima do futuro.

A  conversa até que está boa, mas vou em frente, procurar outra prosa, ali naquele outro banco, a COVID-19, pandemia que matou tantos velhos da cidade, na família perdi dois irmãos, estou salvo pela graça, agora, duas doses de vacinas, meu Deus do céu, tem gente que nao acredita em vacina.

Fiquei em casa preso por mais de ano, me deu um nervoso esquisito, queria morrer, me vi morto, enterrado sem ninguém perto, jogado na cova como um burro velho. Aquilo nao saía da minha cabeça, varri, lavei banheiro, acordava na madrugada, rua deserta, chapéu e a máscara, saía, com dor na consciência, mas, era noite, dei volta na praça, voltei logo, não toquei em nada, a noite escura, o céu diferente, a lua quase mouca, um tempo diferente.

Fui andando, volteando a rua, caçando assunto para conversar. Queria falar, queria ouvir, queria dizer que estou vivo, queria o dia claro, mesmo que fosse noite. Surgiram verrugas nos dedos, de tanto contar estrelas, perdi a conta, estou queimando com ferro quente, já limpei do dedo fura-bolo, não tem mais nada para fazer, vou embora.

Por Blog do Confúcio Moura

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