María Eva Duarte de Perón (1919-1952), morreu de câncer no útero, aos 33 anos.
María Eva Duarte de Perón (1919-1952), morreu de câncer no útero, aos 33 anos.
María Eva Duarte de Perón (1919-1952), morreu de câncer no útero, aos 33 anos.

A triste combinação de diagnóstico tardio e a falta de opções de tratamento matou a líder política argentina Eva Perón, com 33 anos, em 1952, vítima de um câncer de colo de útero com metástase no pulmão. O cenário de 64 anos atrás é uma realidade na rotina das brasileiras que tratam o tumor maligno no colo do útero, que é o terceiro tipo de câncer mais frequente na população feminina e a quarta causa de mortes de mulheres por câncer no país. O Câncer de Colo do Útero é o terceiro mais comum em mulheres brasileiras e, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), serão 16.340 novos casos em 2016.

Entre 1944 e 1948, 70% das mulheres, na Argentina, eram diagnosticadas em estágio II ou III da doença. Em pleno 2016, o número é parecido no Brasil. Atualmente, segundo as estatísticas do INCA (Instituto Nacional do Câncer José Alencar), apenas 44% das mulheres são diagnosticadas na fase inicial da doença, o restante, 64%, ainda descobrem a doença na fase avançada.
Na época de Eva Perón, na Argentina, cerca de 60% das mulheres no estágio I da doença tiveram uma sobrevida de 5 anos. Nos estágios avançados da doença, a proporção caia para 30%. No Brasil, para a Dra. Daniela Freitas, médica oncologista do Hospital Sírio Libanês e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, o conhecimento insuficiente da doença e das ferramentas para sua prevenção e tratamento justificam as altas taxas de incidência, morbidade e mortalidade no país. “A demora do diagnóstico e do tratamento dificulta o controle do câncer de colo de útero. A falta de acesso ao  tratamento adequado, como cirurgia com especialistas, radioterapia e novos medicamentos para  casos avançados, também impactam significativamente a mortalidade e morbidade pela doença. Por este motivo, são necessárias iniciativas para criar um sistema mais eficiente para o rastreamento e tratamento do câncer de colo de útero” ressalta a especialista.
Aceitação da doença
Em 64 anos, uma das mudanças mais radicais foi a forma que a doença é tratada pela sociedade. Muitas teorias apontam que Eva Peron morreu desconhecendo o diagnóstico de câncer. Naquela época, a doença era escondida pelas famílias para maior conforto do enfermo. Especialistas acreditavam que os pacientes não respondiam bem ao tratamento e perdiam as esperanças ao saber que tinham um tumor maligno.
Atualmente, os médicos reafirmam que a motivação do paciente ajuda no combate à doença, principalmente, por evitar a depressão, que dificulta a resposta do organismo ao tratamento. “Somos claros e objetivos quando falamos o diagnóstico. É antiético escondê-lo do paciente.  Porém, mesmo nos casos mais graves e irreversíveis, há tratamentos disponíveis para combater o tumor, com perspectiva de acrescentar tempo e qualidade de vida ao paciente”, afirma Dra. Daniela.
Entenda a gravidade do câncer de colo do útero
Este é um problema mundial, mas os números mostram que, no Brasil, a situação é ainda mais grave. Muitas mulheres não conhecem os riscos da doença e nem a importância de fazer exames preventivos, como o Papanicolaou. Entre mulheres em situação de pobreza ou que vivem nas Zonas Rurais, a situação é pior. No mundo, mais de 270 mil mulheres morrem por ano em decorrência do câncer de colo do útero. No Brasil, a mortalidade do câncer de colo do útero é 2 vezes maior do que em países desenvolvidos. São 5.430 mortes ao ano, uma morte a cada 90 minutos.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, encomendada pela Roche, líder mundial em inovação em saúde, entrevistou 5.508 pessoas, entre homens e mulheres, de diferentes faixas etárias, níveis de escolaridade, classes sociais e em todas as regiões do Brasil, com o objetivo de conhecer a percepção da população sobre o câncer de colo do útero, considerando seus estágios inicial e avançado.
Realizada no primeiro trimestre de 2016, a pesquisa constatou que 73% dos brasileiros não conhecem pessoas que tenham ou que já tiveram câncer de colo do útero. O câncer de colo de útero atinge principalmente mulheres jovens, com poucos anos de estudos (aproximadamente 10% das pacientes com câncer de colo de útero no Brasil não foram alfabetizadas) e com limitado poder aquisitivo. Mas muitas vezes barreiras culturais se somam a falta de informação, como a vergonha de realizar exame ginecológico ou proibição por parte de companheiros. Por isto a informação sobre as ferramentas de controle, como vacina, exame preventivo de papanicolaou e avanços no tratamento precisam ser globalmente difundidos na população.
No Brasil, 77% das pacientes com câncer de colo do útero são diagnosticadas com a enfermidade já em fases mais avançadas, quando começam a surgir os primeiros sintomas, como sangramentos e dores pélvicas. O ideal é que a doença seja evitada, o que é possível com a vacina e com o exame de papanicoalaou ou seja detectada em seus estágios iniciais. A chance de cura ou controle da doença são diretamente proporcionais a precocidade do diagnóstico. A morbidade relacionada a doença e ao tratamento também aumenta com o avançar dos estágios.
Diante desse cenário, a Anvisa aprovou recentemente com priorização a utilização de um medicamento biológico já utilizado em outros países, o bevacizumabe, como a primeira terapia-alvo oferecida para o tratamento do câncer de colo do útero e o único avanço nos últimos 10 anos para tratar a doença em seu estágio mais grave. Trata-se do primeiro medicamento biológico que trouxe o benefício de sobrevida global sem redução da qualidade de vida das pacientes com esta doença. Até então, o tratamento neste contexto era quimioterapia isolada.
A escolha da terapia ideal para cada paciente dependerá do estágio da doença e condições clínicas da paciente, comumente sendo necessárias combinações de cirurgia, quimioterapia e radioterapia.
Sobre o câncer de colo de útero
O câncer de colo de útero tem sua maior incidência entre os 45 a 50 anos e é causado principalmente pela infecção persistente do HPV (papilomavírus humano). De acordo com as projeções do INCA, em 2016, são esperados mais de 15 casos a cada 100 mil mulheres. É possível evitar a doença com exames preventivos como o exame papanicolauou.
O câncer se desenvolve lentamente e sem sintomas na fase inicial, porém, a doença pode desencadear quadros de sangramento vaginal, secreção vaginal anormal e dores abdominais. Os tratamentos mais comuns são a cirurgia, quimioterapia e radioterapia, porém, fatores como idade e evolução do tumor podem remeter a outros tratamentos, como a terapia-alvo.
Referências
3.    Incidência do Câncer no Brasil pelo do Instituto Nacional do Câncer (INCA) – http://www.inca.gov.br/estimativa/2016/tabelaestados.asp?UF=BR
4.    Incidência de Infecção por vírus do HPV no Brasil pelo Ministério da Saúde – http://www.aids.gov.br/pagina/dst-no-brasil
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