Por Elizeu Lira (*)

 Dizem que a política é feita de símbolos. Estes por sua vez são representados por gestos eloquentes e frases de efeito, com retumbante repercussão na mídia e no meio político. Campanhas são ganhas ou perdidas a partir de gestos ou frases maus ou bem colocadas, no momento, no tom e nos lugares certos, ou errados, a depender do ponto de vista do interessado. Se isto é crença ou ciência, cada um tire suas próprias conclusões.

De qualquer modo, fazer política é combinar o discurso com a prática, para os que têm o poder nas mãos, ou seja, o mandato. Para os que não têm, restam-lhes administrar o verbo como elemento de persuasão, de convencimento.

As campanhas eleitorais prestam-se para isso. São nelas que os que têm mandatos reverberam os seus feitos pretéritos, buscando adequá-los ao discurso utilizado na campanha em que foram eleitos e criar conexões com o que farão, caso sejam reeleitos. Note-se: para estes, o exercício verbal é mais complexo, pois têm que combinar uma fala feita na campanha anterior com o que conseguiu realizar (ou a falta delas) e acomodá-las com as expectativas que criaram no eleitorado de um jeito de que os convençam que, ainda, são os melhores nomes.

Num ambiente político fragilizado pelo baixo capital social da população, cujas relações de interdependência conectam todo mundo a todo mundo, os discursos são permeados de cuidados e de dubiedade. Neste sentido, num ambiente assim, a máxima repetida desde sempre “em eleição o que vale é a desconstrução do outro” é tomada ao pé da letra. A ‘desconstrução do outro’ é levada ao extremo, quando se busca aniquilar a honra, a biografia, o histórico familiar e pessoal e, não muito raro, literalmente, a vida do outro.

Das várias campanhas em que participei (como observador da cena política), no nível estadual e municipal, uma coisa me chamou a atenção com maior ênfase: o silêncio dos candidatos sobre temas palpitantes para os cidadãos, cujo enfrentamento e resolução elevariam o patamar da qualidade de vida de todos.

No geral, todos se limitam a propor o obvio, com variações pontuais, como se a administração pública necessitasse de meros despachantes, com atribuições limitadas ao período do mandato – e sem nenhuma consequência futura, para o administrador e menos ainda para a população. Numa cidade em que falta quase tudo em termos de serviços públicos, o avanço exige bem mais que despachantes. Isso é verdadeiro nos dois espaços de poder municipal: na Câmara e na prefeitura.

Com o título deste artigo, busco chamar a atenção para esta negação nos oferecida ao longo das campanhas. Não queremos ser geridos por despachantes de varejos, de pequenas soluções que em nada melhoram nossas vidas e que nos obrigarão a passar quatro sem que os problemas relevantes sejam enfrentados.

Naturalmente que não esperamos soluções milagrosas, desproposital, mas não é aceitável que nenhuma solução seja oferecida. Se elas não forem apresentadas agora, quando a cidade está com quinhentos e trinta mil habitantes, os problemas ficarão cada dia mais difíceis de serem resolvidos.

Vou citar um deles, sempre tergiversado pelos sucessivos gestores e que, se não resolvido nos próximos dez anos, ganhará dimensão de quase insolúvel: a oferta de água e esgotos para todos os moradores de Porto Velho.

Talvez este problema não seja abordado pelos candidatos a prefeito, ao longo das campanhas, pelo fato de que o seu enfrentamento não é para despachantes – e sim para gestores de elevada capacidade administrativa e comprometidos com o futuro da cidade.

Portanto, em novembro os eleitores de Porto Velho terão o desafio de escolher candidatos com perfil de despachantes ou de gestores com potencial de apontar soluções para os problemas que limitam o desenvolvimento da cidade – e penalizam os seus habitantes.

(*) Elizeu Lira, 57 anos, sociólogo, especialista em políticas públicas e marketing político

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