Por Elizeu Lira (*)

 

Hoje faz exatamente uma semana em que houve a votação do segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Nelas ocorreram coisas incomuns para as eleições realizadas após a redemocratização do País, potencializada pelo papel desempenhado pela internet e redes sociais. A meu ver, três elementos macro atuaram para produzir o clima observado durante o pleito, incluindo as redes.

O primeiro deles foi a o sentimento antipetista, combinado com a convicção de que a corrupção brasileira teve origem no partido fundado há 38 anos. Antes, ou não existíamos ou éramos uma republica de políticos e gestores probos. Talvez isso explique o nível de desigualdade e de pobreza em que ainda nos encontramos.

O segundo elemento é a constatação quase absoluta de quê a violência não tem limites e que a sua evolução se deve a liberdade vivida pela sociedade brasileira nos últimos anos. Confunde-se liberdade democrática com falta de ordem – e atribuem-se a ela o clima de insegurança que resulta de políticas frágeis e histórica inversão de prioridades. Também, como no caso da corrupção, a violência não é criação de um partido. A maioria das facções criminosas e dos seus lideres, presos ou livres, são anteriores ao Partido dos Trabalhadores e à sua chegada ao poder – além dos homicídios, roubos, furtos, drogas.

O terceiro elemento foi o advento das redes sociais, na quantidade e com as características como a que temos hoje. O manejo das plataformas pelas campanhas e simpatizantes produziram tal quantidade de fatos e desvirtuações que não puderam ser processadas no tempo e de forma adequadas. Nem pelas campanhas, nem pelos especialistas.

Como observador da cena política, uma coisa em particular me chamou a atenção: a pronta reação às opiniões dos colunistas, articulistas e blogueiros, das mais variadas posições políticas e dos mais diversos veículos. Dediquei-me a ler as opiniões expostas em artigos, colunas, blogues e editoriais no período após o primeiro turno, em todos os veículos que tenho acesso. Buscava me informar sobre a ideia que martelava a minha cabeça e que me importava mais do que quem  seria o vencedor das eleições: a continuidade ou não nossa democracia (escrevi até artigo com este receio).

Nessas leituras, constatei que não havia um texto em que a secção de comentários não fosse invadidas por respostas daqueles que se achavam incomodados com algum tipo de opinião não alinhada com a sua. E não eram poucos os comentários, seja em que veículo fosse, seja quem fosse o autor ou autora. Pareceu-me haver uma orquestração para que nada ficasse sem resposta, ou sem contraponto, sempre tendo como referência o adversário, o “pior sempre era o outro” – e o autor do texto era taxado de alinhado e não isento, fora outros adjetivos.

Este artigo nasce da leitura de uma crônica do Luis Fernando Veríssimo no Estado de São Paulo de hoje. Nela, ele faz referência ao fato de torcer pelo Interacional de Porto Alegre e, por um mal entendido político, ser obrigado a dizer que é gremista, adversário ferrenho do seu colorado.  Os comentários postados ao seu texto vão além da livre manifestação de opinião e do contraditório, tão caros a mim e à democracia que prezo. Ao contrário, o fervor das manifestações me sugere que a eleição não acabou.

 (*) Elizeu Lira é sociólogo, 55 anos, especialista em políticas públicas.

Facebook Comments