Por Vilson de Salles Machado (*)

Nestes tempos de tentativa de construir uma polivalência e multidisciplinaridade do perfil do militar, em que ele é chamado para missões que extrapolam o essencial do seu papel, há que se recorrer ao bom senso e, sobretudo, à compreensão da sua natureza humana. Nós não podemos ou sabemos tudo, reconheça-se. Neste processo, exageros a parte, há uma variável positiva que quero tratar neste artigo, à guisa de contribuição ao debate em curso.

Além de intervir em casos que o combate à violência e ao crime é necessário, os militares, de qualquer Força, são chamados a intervir em processos de desorganização social, rupturas da ordem institucional ou para a garantia de cumprimentos de determinações de terceiros, sempre como última tentativa de controlar o caos instalado.

Nesses casos, embora seja exigida a força simbólica que os militares trazem consigo, como algo inerente à sua natureza institucional, o mais relevante é a capacidade que se têm em produzir um ambiente de normatização e disciplina, no qual o caos que exigiu a sua presença dá lugar a fluxos e soluções. Talvez seja esta a variável principal considerada na decisão de solicitar a presença de militares em alguns momentos específicos.

Neste sentido, cada vez mais militares assumem posição gerencial nas organizações públicas, nas três esferas de governo. E aqui não me refiro à “militarização”, tal como a conhecemos, que consiste na ocupação em massa por militares de espaços antes ocupados por civis.  Refiro-me à liderança gerencial de processos administrativos antes desenvolvidos por um coletivo de civis, cujos fluxos e encaminhamentos emperram, muitas vezes, na falta de comando ou na cultura espontaneísta dos ambientes públicos.

Para isso, contribui em muito o fato destes protagonistas militares estarem alicerçados em sólida formação acadêmica, muitas vezes em mais de uma disciplina, o que lhes oferecem suporte teórico e técnico para avançar nas questões tergiversadas pela burocracia. Isto é, cada vez mais, a elevada formação curricular dos militares, somam-se a sua capacidade organizativa e a disciplina comportamental intrínseca à carreira. Assim, teremos as condições objetivas para alavancar ou dinamizar processos envolvidos no caos gerencial.

Essas características foram importantes nos cargos que ocupei, tanto no âmbito da própria Policia Militar, como na Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental – SEDAM, no segundo mandato do governador Confúcio Moura. A disciplina organizacional apreendida ao longo da carreira foi essencial para a obtenção dos avanços numa área de elevado grau de complexidade e com enorme potencial de conflito – além do longo histórico de corrupção.

Com perfil conciliador e de respeito aos interlocutores, consegui adotar na SEDAM uma gestão baseada no diálogo, na organização otimizada de fluxos e processos internos, na normatização da legislação, na padronização de procedimentos fiscalizatórios ou autorizativos e, sobretudo, na interlocução com os agentes envolvidos ou interessados nas políticas desenvolvidas pela Pasta. Com isso, construímos um ambiente produtivo, em que a desconfiança renitente foi substituída por cooperação entre todas as partes.

Como resultado concreto desta estratégia, avançamos na organização e efetivação da legislação de interesse do Estado e do meio ambiente como um todo, eliminamos conflitos e operações pirotécnicas, além de melhorar e modernizar a estrutura operacional da Instituição, com foco na transparência.

Enfim, e sem falsa modéstia, credito estes avanços à minha formação militar e à liberdade que tive para conduzir a gestão na Pasta. Esta combinação reúne as condições perfeitas para a eficiência e eficácia tão buscada nos serviços públicos.

(*) Vilson de Salles Machado, é Coronel da Reserva da Policia Militar do Estado de Rondônia, Bacharel em Direito e Pós-Graduado em Metodologia do Ensino Superior, foi Secretário de Estado do Desenvolvimento Ambiental – SEDAM no período de dezembro de 2014 a abril de 2018.

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